Camões e a Algarvia
Mário Lyster Franco - Camões e a Algarvia
Camões e a Algarvia, da autoria de Mário Lyster Franco, é uma palestra sobre Camões, proferida originalmente em 1945 e 1946 e só publicada anos depois.(1978)
- Excertos de Camões e a Algarvia:
1. Excerto 1 (Prelúdio)
A modos de prelúdio...
Escrita há bem mais de trinta anos, proferida, primeiro, em Dezembro de 1945, no Sarau do aniversário do Ginásio Clube Farense e, depois, em 29 de Novembro de 1946, na Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa, no fecho da I Exposição Bibliográfica e de Artes Plásticas do Algarve, realizada na capital, esquecida no fundo de uma gaveta e só publicada no "Correio do Sul" dez anos depois, lembraram-se agora os amigos do GRUPO DE ESTUDOS ALGARVIOS de que podia haver interesse em dar a esta palestra aquela divulgação livresca ou mais propriamente opuscular, que mais natural seria então tivesse tido.
Isso decerto melhor desculparia certas ingenuidades e fantasias, a talvez que demasiada brevidade que o A. lhe deu e o deixar em branco alguns pormenores, defeitos que, porventura, destinando-a a ser ouvida, tomou então por qualidades e de que - sabe-se lá! - talvez sem grande esforço, destinada que vai ser à leitura, pudesse expurgá-la agora!
Publica-se, no entanto, na sua pureza original. E fácil se torna reconhecer assim que o A. entende que, no revesti-la agora da erudição que então não teve, por mais certa e brilhante que ela fosse, não haveria honesto proceder.(...)
In: "Camões e a Algarvia!"
Faro, Junho de 1978
2. Excerto 2 (Início)
Se, no dizer de Teófilo Braga, o "Amor foi o móvel principal dos pensamentos e atos" de Camões, se foram muitas mulheres que Camões amou, concordemos em que ele foi sempre e principalmente - aparte um ou outro triunfo passageiro que lhe não deixou sulcos no coração -, o poeta dos grandes amores infelizes.
Audacioso, valentaço e brigão, ainda que por apregoados pergaminhos e pela fama de bom versejador que alguns amigos dedicados lhe criavam tivessem si do admitido na corte e na roda das boas famílias: gente "bem" da sua época, o certo e que os veneráveis papás de então, austeros, rabugentos e barbudos como nenhuns outros, viam principalmente nele o "Trinca-fortes" aventureiro e aventuroso, já sabiam que fazer versos - por mais belos e harmoniosos que eles fossem -, não era, positivamente, uma carreira e estavam longe de considera-lo um bom, ou mesmo, apenas, um razoável, um aceitável partido.
3. Excerto 3
D. Francisca de Aragão era filha de Nuno Rodrigues Barreto, alcaide-mor de Faro e vedor da fazenda do Algarve e veio ao mundo em 1536 ou 37,na casa apalaçada da Quinta de Quarteira que seu pai, com aqueles cargos, herdara de seus maiores. Por sua mãe era bisneta do rei D. João II, de Aragão, e Filipe II de Castela tratava-a por sobrinha. Muito nova veio D. Francisca para Lisboa, tendo entrado, com 12 ou 13 anos apenas, ao serviço da Rainha D. Catarina.
(...)Formosíssima, "loira, viva, esperta e azougada" no dizer de outro dos seus biógrafos, admirada e estimada por todos - ainda que, certamente, invejada por algumas - logo ela obteve na corte uma situação privilegiada e nela sua, vida decorreu serena e calma, aparte o delicioso romance mantido com Camões, (...) que lhe deu a principal coroa de glória, e as inflamadas paixões que despertou em todos os vates da época(...).
Resumo detalhado e estruturado da conferência de Mário Lyster Franco:
1. Camões e os seus amores infelizes
Segundo Teófilo Braga, o amor foi o grande motor da vida de Camões.
Apesar de ter amado muitas mulheres, os seus amores foram, em geral, infelizes.
Camões era visto como um aventureiro e brigão, o que não agradava às famílias nobres da época.
Além disso, não era considerado bonito: ruivo, de nariz adunco e aparência desajeitada, seu principal atrativo era o seu trato e o talento poético.
As suas paixões foram desde a juventude, em Coimbra, até musas enigmáticas, como a Natércia, inspiradora de muitos de seus versos.
2. A presença de D. Francisca de Aragão na vida de Camões
D. Francisca de Aragão era uma nobre algarvia, considerada uma das mulheres mais belas e influentes da corte de D. João III e D. Sebastião.
Diferente de outros poetas que a cortejavam, Camões conseguiu cativá-la, embora sua relação tenha sido descrita mais como uma "terna amizade-amorosa" do que um romance arrebatado.
O amor entre os dois teria sido intenso, mas sem comprometer a reputação da dama, que ocupava uma posição de destaque na corte.
Para Teófilo Braga, a relação com D. Francisca foi um grande estímulo para Camões: ele percebeu que precisava de criar uma obra grandiosa para estar à altura dela, o que teria levado à escrita de Os Lusíadas.
3. A separação de Camões e D. Francisca
A Rainha D. Catarina, ao perceber o envolvimento da sua dama de companhia com Camões, decidiu afastá-lo da corte, enviando-o para o Ribatejo.
O romance, transformou-se assim em amizade e respeito mútuo.
O afastamento do poeta não só evitou escândalos como também o direcionou para o seu grande projeto épico.
4. A vida de D. Francisca após Camões
D. Francisca permaneceu solteira até os 40 anos, quando casou com D. João de Borja, embaixador da Espanha e filho de São Francisco de Borja.
Tornou-se condessa de Mayalde e Ficalho, acompanhando o marido em missões diplomáticas.
Faleceu em 1615, desejando ser sepultada em Lisboa, mas acabou sendo enterrada em Valladolid.
5. Uma possível ligação entre D. Francisca e as perseguições a Camões na Índia
O autor levanta a hipótese de que as dificuldades enfrentadas por Camões na Índia não tenham sido apenas resultado das suas sátiras, mas também da ligação com D. Francisca.
O governador da Índia na época, D. Francisco Barreto, era tio de D. Francisca.
Pode-se especular que ele tenha perseguido Camões por este ter ousado envolver-se com a sua nobre sobrinha.
O autor sugere que esta questão ainda não foi explorada a fundo pelos estudiosos e apresenta-a como uma possível nova interpretação dos infortúnios do poeta.
Mário Lyster Franco (1902-1984)
O Arquivo Distrital de Faro destaca, como documento do mês, o registo de nascimento de um ilustre farense, que dedicou toda a sua vida à divulgação e promoção da região e da cultura algarvia, tanto no Algarve como no resto do país.
Mário Augusto Barbosa Lyster Franco, filho de Carlos Lyster Franco, pintor e professor no Liceu de Faro e de Maria das Dores Dias Barbosa, doméstica, moradores na rua de S. Francisco, nasceu às 16h30m, do dia 19 de Fevereiro de 1902, na freguesia da Sé, em Faro.
Formado em direito, dedicou a sua vida à defesa dos interesses da região, à divulgação e promoção da história e da cultura algarvia, participando e organizando conferências, publicando jornais, livros e revistas. Como autor, a sua obra reparte-se entre a arqueologia, a história e a literatura, num total de trinta títulos publicados.
Foi presidente da Câmara Municipal de Faro durante dois mandatos (1932-34 e 1937-39). Defendeu o turismo como fonte de desenvolvimento regional, sendo o “Guia Turístico do Algarve”, editado em 1940 e 1944, pela Revista Internacional, um exemplo da propaganda regionalista e um incentivo ao turismo da região algarvia.
Colaborou ao longo da vida em vários jornais nacionais e regionais como redator, tendo assumido, em 1946, a direção do semanário «Correio do Sul», órgão da imprensa algarvia que dirigiu durante mais de quarenta anos.
A partir de 1980, dedicou -se à elaboração da obra «Algarviana – Subsídios para uma Bibliografia do Algarve e dos Autores Algarvios», obra de investigação de carácter enciclopédico, fonte de utilidade científica e literária, fruto de décadas de investigação, publicando o 1º volume, em 1982 (letras A e B), numa edição da Câmara Municipal de Faro, dois anos antes do seu falecimento, que ocorreria em Camarate, região de Lisboa, a 20 de Agosto de 1984, ficando por publicar, até hoje, os restantes volumes desta obra de referência da região do Algarve.
In:
https://adfar.dglab.gov.pt/2018/02/02/mario-lyster-franco-1902-1984/
2 de Fevereiro de 2018