Origens algarvias de Camões
Vilhena Mesquita - As Origens Algarvias de Camões e o Amor por uma Quarteirense
O historiador José Carlos Vilhena Mesquita, especialista em história e cultura do Algarve, apresenta nos seus estudos diversas ligações entre Luís de Camões e a região do Algarve, destacando tanto suas possíveis raízes familiares quanto as ligações afetivas que o poeta pode ter mantido com figuras nobres algarvias.
No artigo "Origens Algarvias de Camões", Vilhena Mesquita explora as hipóteses genealógicas que sugerem que o poeta poderia ter ascendência algarvia, mencionando parentes residentes na região e uma possível ligação com cristãos-novos, o que poderia ter influenciado as perseguições que sofreu em Goa. O autor também cita referências históricas que indicam que Camões ter-se-ia refugiado no Algarve antes de partir para a Índia.
Já no artigo "Uma Quarteirense que Camões Amou", Vilhena Mesquita destaca a figura de D. Francisca de Aragão, uma dama da corte portuguesa que teria inspirado o poeta. Francisca, filha do alcaide-mor de Faro, era reconhecida por sua beleza e presença marcante na nobreza da época. O relacionamento entre os dois, ainda que possivelmente mais platónico do que apaixonado, ficou imortalizado na troca poética em que Camões respondeu ao mote oferecido por Francisca: "Mas, porém a que cuidados?".
Os artigos de Vilhena Mesquita enriquecem a visão sobre a vida e as influências de Camões, reforçando a importância do Algarve na biografia do maior poeta da língua portuguesa.
Referência Bibliográfica
MESQUITA, José Carlos Vilhena. Origens Algarvias de Camões. In: Promontório da Memória, outubro de 2009.
MESQUITA, José Carlos Vilhena. Uma Quarteirense que Camões Amou. In: Património e Cultura, Ano II, n.º 8, dezembro de 1982, pp. 10-11.
Vilhena Mesquita - Origens algarvias de Camões
Texto de Vilhena Mesquita
Manuel Severim de Faria afirma que Antão Vaz de Camões, filho de João Vaz de Camões e de Inês Gomes da Silva, casou com Guiomar Vaz da Gama (descendente direto dos Gamas do Algarve, originários do Alentejo) que teve um filho chamado Simão Vaz de Camões, que casando com Ana de Macedo tiveram Luís Vaz de Camões, o poeta nacional e mentor da cultura lusíada.
Também li sobre Camões um artigo de Julião Quintinha intitulado “Camões no Algarve”, publicado no «Correio do Sul» de 27-8-1922. A fonte do artigo era o escritor anti-semita Mário Saa que lhe terá confidenciado que Camões tinha no Algarve um tio chamado Pero Vaz de Camões, na casa do qual aliás se refugiara quando em 1546 fugiu de Lisboa por causa dos amores com sua prima Isabel Tavares. O alcaide-mor de Silves e o alcaide-mor de Lagos eram seus parentes, presumindo-se que ele esteve refugiado no morgado de Boina, que era de um outro seu parente próximo, irmão do poeta Jorge da Silva ali refugiado também por essa altura, por via dos seus amores com uma infanta da Corte. O poeta partiu de Lisboa para o Algarve pouco antes de seguir para a Índia. Parece que o tio, Pero Vaz de Camões, tinha sangue judeu, sendo talvez as origens de cristão-novo a causa das perseguições movidas pela Inquisição de Goa contra o poeta dos Lusíadas.
In: https://promontoriodamemoria.blogspot.com/2009/10/origens-algarvias-de-camoes.html, outubro de 2009
José Carlos Vilhena Mesquita - UMA QUARTEIRENSE QUE CAMÕES AMOU
- Síntese do Texto:
O historiador José Carlos Vilhena Mesquita destaca a figura de D. Francisca de Aragão, nobre algarvia e possível musa inspiradora de Os Lusíadas. Nascida na casa senhorial dos Barretos, na praia de Quarteira, Francisca era filha de Nuno Rodrigues Barreto, alcaide-mor de Faro, e neta de D. Afonso de Aragão, descendente bastardo do rei D. João II de Aragão. Desde jovem, integrou a corte portuguesa ao serviço da rainha D. Catarina, tornando-se uma das mais admiradas damas do Paço, superando até a infanta D. Maria em beleza e sendo louvada por poetas da época.
A ligação de Francisca de Aragão com Luís de Camões é evidenciada pelo mote que ela lhe ofereceu – "Mas, porém a que cuidados?" –, ao qual o poeta respondeu com uma glosa. Segundo Mário Lyster Franco, a relação entre ambos não teria sido um amor arrebatado, mas sim uma "terna amizade-amorosa", expressão de Júlio Dantas, marcada por admiração e ternura, tornando-se um dos mais belos episódios da vida do poeta. Esse vínculo teria começado após o regresso de Camões de Ceuta, por volta de 1551, e durado até sua prisão na cadeia do Tronco, em 1552, após um duelo.
- Excerto do texto UMA QUARTEIRENSE QUE CAMÕES AMOU :
Em 1980 assinalou-se o 4º Centenário da morte do maior vate da Língua portuguesa. Porém, perdeu-se então a oportunidade de, através de uma singela placa evocativa, se perpetuar a existência no Algarve da casa que foi berço a D. Francisca de Aragão, considerada como a musa inspiradora dos Lusíadas. O edifício, na praia de Quarteira, denominada «Estalagem da Cegonha», foi, no século XVI, residência de Nuno Rodrigues Barreto, alcaide-mor de Faro e vedor da Fazenda do Algarve, pai da «loira, viva, esperta e azougada» Francisca de Aragão.
Foi nessa vetusta casa apalaçada do morgadio dos Barretos, que nasceu a formosa Francisca de Aragão, que viria a ser figura de proa nas cortes de Portugal e de Espanha. Trata-se de um assunto pouco conhecido sobre uma jovem algarvia, originária da distinta família dos Barretos, que pontificou na corte portuguesa nos finais do século XVI, no período de transição da perda da nacionalidade para a dominação filipina, cuja descendência foi também eminente na vizinha Espanha.
*Pode ler o texto completo no link seguinte:
In:
https://algarvehistoriacultura.blogspot.com/2010/03/uma-quarteirense-que-camoes-amou.html
(artigo publicado na revista «Património e Cultura», Ano II, n.° 8, Dezembro de 1982, pp. 10-11 )
- Para saber mais:
Casa Senhorial da Quinta de Quarteira / Estalagem da Cegonha
1.Edificada no século XVI, a Estalagem da Cegonha é um edifício emblemático situado à entrada de Vilamoura, Loulé, no distrito de Faro, que era a casa senhorial do Morgado de Quarteira e que, segundo os registos, foi visitada por Dom Sebastião em 1573.
“Os terrenos da Estalagem da Cegonha têm particular relevância por se tratar da casa senhorial do antigo Morgado de Quarteira, adquirida no final dos anos 60 do século passado por Cupertino de Miranda, visto como o primeiro visionário de Vilamoura”(...)
In: https://eco.sapo.pt/2023/10/17/arrow-global-investe-90-milhoes-na-estalagem-da-cegonha-em-vilamoura/
2.Casa do antigo morgado de Quarteira, construída no séc. 16, ampliada posteriormente e adaptada a instalação hoteleira. Atualmente apresenta planta irregular, composta por vários corpos articulados e de coberturas diferenciadas, o da zona mais antiga em L, formando pátio central. As fachadas evoluem em dois pisos, com vários elementos sublinhados a ocre e rasgadas por janelas retilíneas. A fachada principal, virada a nascente, revela diferença na modinatura dos vãos e no remate, criando como que dois falsos panos, certamente resultantes da ampliação ou fases construtivas de épocas distintas. No pano da direita, abre-se portal quinhentista, em arco apontado, biselado, e, no segundo piso, quase ao centro da fachada, óculo polilobado. Ao longo do piso térreo dispõem-se argolas de prisão, em ferro, sobre azulejos, e, no pano esquerdo, pequena sineira.
In: http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=36344
3.Mote que D. Francisca ofereceu a Luís de Camões:
(...) ficou célebre o mote que D.' Francisca ofertou ao galante Luís Vaz de Camões, cujo génio poético já ecoava pelos corredores do Paço, e que se resume a esta simples frase: «Mas, porém a que cuidados?».
O temperamental e fogoso «Trinca Fortes» (alcunha popular do poeta), para fazer valer a sua fama de inspirado versejador, devolveu-lhe o mote glosado de três formas diferentes, das quais não podemos escusar-nos a transcrever aquela que mais nos pareceu identificada com ambos:
«Se as penas que o amor me deu
Vêm por tão suaves meios,
Não há que temer receios;
Que vale um cuidado meu
Por mil descansos alheios?
Tens uns olhos tão formosos
Os sentidos enlevados
Bem sei que em baixos estados
São cuidados perigosos,
Mas, porém, a que cuidados?