Camões no Algarve
Saa, Mário por Julião, Quintinha
Mário Saa (1893-1917), dedicou-se à filosofia, à genealogia, à geografia antiga, à poesia, à problemática camoniana, às investigações arqueológicas, e mesmo à astrologia e à grafologia. O seu interesse pela arqueologia e a investigação que realizou sobre vias romanas deram origem à sua obra de maior importância, «As Grandes Vias da Lusitânia», em seis volumes, o produto de mais de 20 anos de investigações e prospeções arqueológicas que é, ainda hoje, uma obra de referência. A par com a arqueologia, Mário Saa destacou-se, também, no panorama da poesia portuguesa das décadas de 20 e 30 do século XX, publicando com assiduidade na revista Presença e privando com os grandes poetas e intelectuais da época no âmbito da boémia literária da Brasileira do Chiado. Em 1959 colaboraria ainda no primeiro número da revista «Tempo Presente».
In: https://www.e-cultura.pt/efemeride/1328
Julião Quintinha (Silves, 9 de Dezembro de 1886 — Lisboa, 23 de Julho de 1968) foi um jornalista e escritor que desempenhou importante papel na direção das associações que deram origem à Casa da Imprensa de Lisboa.
Esteve ligado às organizações operárias e ao anarco-sindicalismo. Na área jornalística colaborou na II série da revista Alma nova (1915-1918), Renovação (1925-1926), Contemporânea (1915-1926).
Fez parte do Grande Oriente Lusitano, tendo sido iniciado em 1912 em Portimão, com o nome simbólico de Danton.
Viajou pelas colónias portuguesas da África Ocidental, de onde escreveu África misteriosa: crónicas e impressões duma viagem jornalística nas colónias da África Portuguesa em 1928. Continuou a sua viagem em direção ao Mar Vermelho, seguindo depois, para o Egipto. De lá escreveu A derrocada do Império Vátua, em parceria com Francisco Toscano.
Julião Quintinha foi um dos autores mais agraciados nos concursos literários da Agência Geral das Colónias.
In: Wikipedia
Artigo de Julião Quintinha, publicado no Jornal Correio do Sul de 27 de Agosto de 1922
- Síntese do artigo de Julião quintinha:
Julião Quintinha apresenta no texto informações inéditas sobre Luís de Camões, com base nos estudos de Mário Saa, um intelectual conhecido pelas suas investigações originais. Segundo Saa, Camões teria passado pelo Alentejo e pelo Algarve por volta de 1546, fugindo de Lisboa devido a um romance proibido. No Algarve, ter-se-ia refugiado junto a familiares, incluindo seu tio Pero Vaz de Camões. O estudo sugere que o poeta descreveu a fauna e flora da região nos seus versos. Além disso, Saa traça a descendência de Pero Vaz de Camões até tempos recentes, destacando um trágico episódio de suicídio na família.
- Excertos do texto do artigo de Julião Quintinha:
Foi há poucos dias num recanto do “Martinho” a propósito dos seus curiosos estudos e investigações, sempre originais, que Mário Saa, um grande temperamento de intelectual — obrigou a minha atenção a fixar-se nas suas revelação inéditas, acerca de Camões.
Mário Saa falou-me do seu livro já no prelo, Camões no Maranhão em cujas páginas nos conta como e porque o mal-aventurado poeta veio dar a terras do Alentejo do Algarve; e este caso, para mim, inédito, de Camões ter vindo terras algarvias, parece-me digno de contar aos meus comprovincianos que tiverem a simpática mania de se interessar por tudo que, de qualquer forma, se prende à nossa terra.
Desataviado de broquéis literários, eu contarei como ouvi; antes, duas palavras sobre o autor do estudo.
Não conhecem talvez o Mário Saa?
É uma figura minúscula, pouco mais dum côvado de estatura, duas dúzias de anos de idade, com uma cabeça que é pequena — vê-se bem — para conter tenta coisa que tem lá dentro; a sua fisionomia agitada, enriquecida por um olhar penetrante, exterioriza alguns curiosos contrastes: Ele nervoso, ágil, inquieto, e ao mesmo tempo, os seus atos e atitudes são duma grande severidade é simples nas palavras, modesto no vestuário, contudo possui uma notável intuição de elegância e requintes; é comunicativo, dispersando alegria aos punhados, mas os seus olhos humedecem-se de lágrimas à mais pequena emoção.
Mário Saa tem vivido com sábios e estudiosos, tem corrido o país e parte do estrangeiro, consultando pessoas, lendo nas pedras e nas esquinas, enriquecendo os seus estudos rácicos, genealógicos e de arqueologia.
Foi ele quem lançou a audaciosa afirmação de Portugal, presentemente, era governado por judeus, acrescentando: que entrar no Parlamento Português o mesmo é que entrar numa sinagoga; foi ele que nos contou que Afonso Costa é judeu, descendente de Pero da Costa que foi queimado por judaísmo, pela inquisição, em Coimbra, no ano de 1636 — dando-se a coincidência daquele ser queimado num dia 5 de outubro e com a mesma idade que Afonso Costa tinha quando, também a 5 de Outubro de 1910, ajudou implantar a República.
Apesar de moço Mário Saa tem obra — : uma vasta colaboração em revistas e jornais; e os livros: “Evangelho de S. Vito”, “Camões no Maranhão” e “Código Incivil”.
E, agora que lhes apresentei homem, vou contar o que ele me disse:
Luís de Camões em 1546, teve de fugir de Lisboa por causa dos amores com sua prima Isabel Tavares, indo refugiar-se no Alentejo, em Avis, terras de seus parentes, nuns montes próximos duma ribeira que é das mais selvagens que serpeiam pelo Alentejo; ainda hoje, a duas léguas deste local, existe, em ruínas uma torre onde viveu, no tempo de Camões, um outro Luís de Camões, parente daquele, também aventureiro e poeta, e ambos da mesma idade.
Destes sítios partiu o grande épico para o Algarve onde tinha um tio, Pero Vaz de Camões, — de onde descendem, até hoje, os representantes da baronia Vaz de Camões.
O alcaide mor de Silves e o alcaide mor de Lagos eram parentes de Camões, presumindo-se que este estivesse refugiado no morgado da Boina, à margem duma ribeira que desce da serra de Monchique — morgado que era também seu parente muito chegado, e irmão do poeta Jorge da Silva que, por amores com uma infanta, fugira da corte, refugiando-se em casa do irmão, na mesma época em que Camões andava desterrado no Algarve. Da nossa província partiu Luís de Camões para Lisboa e logo, depois, para a celebre viagem da Índia. Há versos seus, onde descreve toda a flora e fauna do Algarve, em que faz especiais referências à ribeira da Boina.
Mário Saa contou-me haver desvendado toda a descendência do tio do poeta Pero Vaz de Camões, do Algarve, quase até há presente data; averiguando que um dos últimos varões — amoroso aventureiro, vida agitada — tinha acabado no Alentejo próximo de Crato, onde se suicidara numa Cisterna — minado por dores e desventuras.
Cid Marcus Vasques (Santos,1934 - São Paulo, 2022) - Professor de "Mitologia e suas relações com a Astrologia e as Artes em geral", refere o nome de Mário Saa no artigo:
OS LUSÍADAS - MITOLOGIA & ASTROLOGIA
Dentre os vários pesquisadores que estudaram a vida e a obra do poeta, há um, Mário Saa, que me parece ter resolvido definitivamente a questão. Mário Paes da Cunha e Sá (1893-1971), que adotou o arcaizante Saa para seu sobrenome, segundo estudos astrológicos (As Memórias astrológicas e o nascimento do poeta), realizados em cima dos textos de Camões, conseguiu não só confirmar o dia (23 de janeiro de 1524) como precisar a hora do seu nascimento, às 20 horas e 40 minutos.
Mário Saa observa que o próprio Camões havia deixado um registro sobre o seu nascimento numa de suas Canções:
O dia em que nasci morra e pereça,
Não o queira jamais o tempo dar
Não torne mais ao mundo, e se tornar,
Eclipse, nesse passo, o sol padeça.
A luz lhe falte, o sol se lhe escureça;
Mostre ao mundo sinais de se acabar,
Nasçam-lhe monstros, sangue chova o ar,
A mãe ao próprio filho não conheça.
As pessoas pasmadas, de ignorantes,
As lágrimas no rosto, a cor perdida,
Cuidem que o mundo já se destruiu!
Ó gente temerosa, não te espantes,
Que este dia deitou ao mundo a vida
Mais desgraçada que jamais se viu!
Mário Saa afirma que nos versos da primeira quadra acima está implícito na redundância “morra e pereça” o duplo infortúnio, reconhecido pelo próprio poeta, que o atingiria, representado, de um lado, pela conjunção Júpiter-Saturno, presente no seu mapa astrológico, e, de outro, pelo eclipse solar que deveria ocorrer exatamente um ano depois, em 1525, no mesmo dia.
- Pode ler o artigo completo no seguinte link:
https://cidmarcus.blogspot.com/2014/04/os-lusiadas-astrologia-mitologia-os.html