A Cidade e o Mar na Poesia do Algarve
- Fernando Cabrita
Poeta, Advogado. Colaborador em publicações regionais, nacionais e estrangeiras.
As estrofes selecionadas pelo poeta e escritor algarvio Fernando Cabrita para o livro A Cidade e o Mar na Poesia do Algarve ressaltam momentos marcantes da luta contra os mouros e a integração definitiva da região ao território português.
A seleção destas passagens demonstra o quanto o Algarve é um elemento essencial na poesia de Camões e na construção da identidade nacional. O escritor algarvio, ao revisitar esses episódios mostra a relevância da região na história de Portugal e a sua presença na literatura épica. Também reflete a continuidade de um imaginário que associa o território à resistência, à conquista e ao mar – elementos centrais na formação da cultura portuguesa.
LUÍS DE CAMÕES
(Nasceu provavelmente em Lisboa, em 1524.Faleceu em Lisboa, em 1580)
Canto III - Estrofes 74, 86, 87, 88 e 96.
Tornado o Rei sublime, finalmente,
Do divino Juízo castigado,
Depois que em Santarém soberbamente,
Em vão, dos Sarracenos foi cercado,
E depois que do Mártir Vicente
O santíssimo corpo venerado
Do Sacro Promontório conhecido
À cidade Ulisseia foi trazido;
Depois que foi por Rei alevantado,
Havendo poucos anos que reinava,
A cidade de Silves ter cercado,
Cujos campos o Bárbaro lavrava.
Foi das valentes gentes ajudado
Da Germânica armada que passava,
De armas fortes e gente apercebida,
A recobrar Judeia já perdida.
Passavam a ajudar na santa empresa
O roxo Federico, que moveu
O poderoso exército, em defesa
Da cidade onde Cristo padeceu.
Quando Guido, co a gente em sede acesa,
Ao grande Saladino se rendeu,
No lugar onde aos Mouros sobejavam
As águas que os de Guido desejavam.
Mas a fermosa armada, que viera
Por contraste de vento àquela parte,
Sancho quis ajudar na guerra fera,
Já que em serviço vai do santo Marte.
Assi como a seu pai acontecera,
Quando tomou Lisboa, da mesma arte
o Germano ajudado, Silves toma
E o bravo morador destrui e doma.
Da terra dos Algarves que lhe fora
Em casamento dada, grande parte
Recupera co braço, e deita fora
O Mouro, mal querido já de Marte.
Este de todo fez livre e senhora
Lusitânia com força e bélica arte,
E acabou de oprimir a nação forte
Na terra que aos de Luso coube em sorte.
Canto VIII - Estrofes 25 e 26.
Olha um Mestre que desce de Castela,
Português de nação, como conquista
A terra dos Algarves, e já nela
Não acha quem por armas lhe resista.
Como manha, esforço e com benigna estrela,
Vilas, castelos, toma a escala vista.
Vês Tavila tomada aos moradores,
Em vingança dos sete caçadores?
Vês, com bélica astúcia ao Mouro ganha
Silves, que ele ganhou com força ingente.
É Dom Pàio Correia, cuja manha
E grande esforço faz inveja à gente.
Mas não passes os três que em França e Espanha
Se fazem conhecer perpetuamente
Em desafios, justas e torneos,
Nelas deixando públicos troféus.
Breve resumo das estrofes apresentadas
No Canto III, a narrativa evoca a campanha militar de D. Sancho I, que, com auxílio de forças germânicas, conquista Silves, uma cidade estratégica e símbolo da presença muçulmana na Península Ibérica. O episódio resgata a importância do Algarve não apenas como uma fronteira a ser consolidada, mas também como um território que se insere nas dinâmicas bélicas da Cristandade medieval. A evocação do Sacro Promontório – uma referência ao Cabo de São Vicente – reforça a sacralidade e o peso histórico da região. Além disso, o mar surge como elemento fundamental na movimentação das tropas e no suporte à campanha militar, com as embarcações cristãs desempenhando um papel crucial nas operações de conquista.
Já no Canto VIII, o poeta menciona Dom Paio Peres Correia, figura crucial na conquista do Algarve. Com astúcia e bravura, ele assegura o domínio português sobre Silves e outras localidades, consolidando a posse da região para o reino. A menção à vingança dos sete caçadores em Tavira insere o feito militar na memória coletiva, transformando a história em mito, uma característica fundamental da epopeia camoniana. O Algarve, banhado pelo Atlântico, aparece não apenas como território a ser defendido, mas também como porta de entrada para novas explorações marítimas e um espaço de ligação entre a terra e o oceano.