Difference between revisions of "Redondilhas escolhidas"

From Wikipédia de Autores Algarvios
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'''Cantiga''' a este mote:<br />
 
 
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'''''Descalça vai para a fonte<br />
 
'''''Descalça vai para a fonte<br />
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Leanor pela verdura;<br />
 
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vai fermosa, e não segura.'''''<br />
 
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'''VOLTAS'''<br />
 
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Leva na cabeça o pote,<br />
 
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o testo nas mãos de prata,<br />
 
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cinta de fina escarlata,<br />
 
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sainho de chamalote;<br />
 
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traz a vasquinha de cote,<br />
 
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mais branca que a nove pura;<br />
 
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vai fermosa, e não segura.<br />
 
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Descobre a touca a garganta,<br />
 
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cabelos d'ouro o trançado,<br />
 
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fita, de cor d'encarnado,<br />
 
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tão linda que o mundo espanta;<br />
 
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chove nela graça tanta<br />
 
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que dá graça à fermosura;<br />
 
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vai fermosa, e não segura<br />
 
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'''Cantiga''' a esta cantiga alheia:<br />
 
 
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'''''Pastora da serra,<br />
 
'''''Pastora da serra,<br />
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da serra da Estrela,<br />
 
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perco-me por ela.'''''<br />
 
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'''VOLTAS'''<br />
 
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Nos seus olhos belos<br />
 
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tanto Amor se atreve,<br />
 
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que abrasa entre a neve<br />
 
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quantos ousam vê-los.<br />
 
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Não solta os cabelos<br />
 
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Aurora mais bela:<br />
 
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perco-me por ela.<br />
 
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Não teve esta serra<br />
 
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no meio da altura<br />
 
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mais que a fermosura<br />
 
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que nela se encerra.<br />
 
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Bem céu fica a terra<br />
 
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que tem tal estrela:<br />
 
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perco-me por ela.<br />
 
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Sendo entre pastores<br />
 
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causa de mil males,<br />
 
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não se ouvem nos vales<br />
 
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senão seus louvores.<br />
 
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Eu só por amores<br />
 
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não sei falar nela:<br />
 
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sei morrer por ela.<br />
 
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De alguns que, sentindo,<br />
 
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seu mal vão mostrando,<br />
 
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se ri, não cuidando<br />
 
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que inda paga, rindo.<br />
 
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Eu, triste, encobrindo<br />
 
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só meus males dela,<br />
 
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perco-me por ela.<br />
 
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<br />
 
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Se flores deseja<br />
 
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por ventura delas,<br />
 
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das que colhe, belas,<br />
 
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mil morrem de enveja.<br />
 
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Não há quem não veja<br />
 
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todo o milhor nela:<br />
 
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perco-me por ela.<br />
 
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Se na água corrente<br />
 
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seus olhos inclina,<br />
 
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faz luz cristalina<br />
 
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parar a corrente.<br />
 
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Tal se vê, que sente,<br />
 
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por ver-se, água nela:<br />
 
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perco-me por ela.<br />
 
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'''Esparsa'''<br />
+
''Esparsa do Autor ao desconcerto do mundo<br />
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do Autor ao desconcerto do mundo<br />
 
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Os bons vi sempre passar<br />
 
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no mundo graves tormentos;<br />
 
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e, para mais m'espantar,<br />
 
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os maus vi sempre nadar<br />
 
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em mar de contentamentos.<br />
 
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Cuidando alcançar assim<br />
 
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o bem tão mal ordenado,<br />
 
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fui mau, mas fui castigado.<br />
 
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Assim que, só para mim<br />
 
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anda o mundo concertado<br />
 
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'''Cantiga'''<br />
 
'''Cantiga'''<br />
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'''CAMÕES E AS REDONDILHAS “BABEL E SIÃO”: A POESIA DO EXÍLIO''' – por Manuel Simões<br />
 
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As redondilhas constituem, como se sabe, uma formosa paráfrase do salmo 137 do ”Livro dos Salmos” e apresentam uma estrutura que as divide em dois blocos (profano e sagrado)(...) <br />O texto camoniano é altamente polissémico e a sua descodificação não tem sido fácil. A controvérsia anda à volta da interpretação de Babilónia, Sião e Jerusalém, topónimos simbólicos que o poeta recupera do salmo. Começa a paráfrase, seguindo de perto a estrutura do salmo («Sôbolos rios que vão/ por Babilónia, m’achei», vv. 1-2). É, portanto, Babilónia («mal presente», v.9) o termo de comparação com outro tempo, outra realidade de crónica menos amarga. Ele próprio o diz de modo peremptório: «e tudo bem comparado,/ Babilónia ao mal presente,/ Sião ao tempo passado»  (vv.8-10). Sendo assim, Babilónia só pode ser referente de desamor e, como tal, conotado por metáforas de maldição. <br />Sião é, pelo contrário, o segundo termo de comparação, o «tempo passado» que se contrapõe ao «mal presente»: daí «as lembranças de Sião» do v. 4. Este topónimo tem sido largamente associado ao platonismo camoniano, à teoria da reminiscência, passando a ser símbolo do “Céu”.(...) <br />Babilónia e Sião parecem ser, pois, os indicadores de maior relevância para a interpretação global de “Sôbolos rios”.<br />
 
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'''SUPER FLUMINA ...'''<br />
 
'''SUPER FLUMINA ...'''<br />
 
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Sôbolos rios que vão<br />
 
Sôbolos rios que vão<br />
−
por Babilónia, m'achei,<br />
 
−
onde sentado chorei<br />
 
−
as lembranças de Sião<br />
 
−
e quanto nela passei.<br />
 
−
Ali o rio corrente<br />
 
−
de meus olhos foi manado,<br />
 
−
e tudo bem comparado,<br />
 
−
Babilónia ao mal presente,<br />
 
−
Sião ao tempo passado.<br />
 
−
<br />
 
−
Ali, lembranças contentes<br />
 
−
n'alma se representaram,<br />
 
−
e minhas cousas ausentes<br />
 
−
se fizeram tão presentes<br />
 
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como se nunca passaram.<br />
 
−
Ali, despois de acordado,<br />
 
−
co rosto banhado em água,<br />
 
−
deste sonho imaginado,<br />
 
−
vi que todo o bem passado<br />
 
−
não é gosto, mas é mágoa.<br />
 
−
<br />
 
−
E vi que todos os danos<br />
 
−
se causavam das mudanças<br />
 
−
e as mudanças dos anos;<br />
 
−
onde vi quantos enganos<br />
 
−
faz o tempo às esperanças.<br />
 
−
Ali vi o maior bem<br />
 
−
quão pouco espaço que dura,<br />
 
−
o mal quão depressa vem,<br />
 
−
e quão triste estado tem<br />
 
−
quem se fia da ventura.<br />
 
−
<br />
 
−
Vi aquilo que mais val,<br />
 
−
que então se entende milhor<br />
 
−
quanto mais perdido for;<br />
 
−
vi o bem suceder mal,<br />
 
−
e o mal, muito pior.<br />
 
−
E vi com muito trabalho<br />
 
−
comprar arrependimento;<br />
 
−
vi nenhum contentamento,<br />
 
−
e vejo-me a mim, que espalho<br />
 
−
tristes palavras ao vento.<br />
 
−
<br />
 
−
(...)
 
−
 
−
In:<br />
 
−
http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000163.pdf<br />
 

Revision as of 16:16, 13 November 2024

1.-Trovas a uma cativa com quem andava de amores na Índia, chamada Bárbara


Cantiga a este mote alheio:

Menina dos olhos verdes,
porque me não vedes?


VOLTAS

Eles verdes são,
e têm por usança
na cor, esperança
e nas obras, não.
Vossa condição
não é d'olhos verdes,
porque me não vedes.

Isenções a molhos
que eles dizem terdes,
não são d'olhos verdes,
nem de verdes olhos.
Sirvo de giolhos,
e vós não me credes
porque me não vedes.

Haviam de ser,
porque possa vê-los,
que uns olhos tão belos
não se hão-de esconder;
mas fazeis-me crer
que já não são verdes,
porque me não vedes.

Verdes não o são
no que alcanço deles;
verdes são aqueles
que esperança dão.
Se na condição
está serem verdes,
porque me não vedes?


Descalça vai para a fonte


Pastora da serra,

Esparsa do Autor ao desconcerto do mundo

Cantiga
a esta cantiga alheia

Perdigão perdeu a pena,
não há mal que lhe não venha:

VOLTAS

Perdigão, que o pensamento
subiu em alto lugar,
perde a pena do voar,
ganha a pena do tormento.
Não tem no ar nem no vento
asas, com que se sustenha:
não há mal que lhe não venha.

Quis voar a üa alta torre
mas achou-se desasado;
e, vendo-se depenado,
de puro penado morre.
Se a queixumes se socorre,
lança no fogo mais lenha:
não há mal que lhe não venha.


SUPER FLUMINA ...

Sôbolos rios que vão