Transforma-se o amador na cousa amada - Soneto - Luís de Camões
Transforma-se o amador na cousa amada
Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.
Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
Pois consigo tal alma está ligada.
Mas esta linda e pura semideia,
Que, como o acidente em seu sujeito,
Assim como a alma minha se conforma,
Está no pensamento como ideia;
[E] o vivo e puro amor de que sou feito,
Como matéria simples busca a forma.
Neste poema, o eu lírico explora a ideia de que o amante, ao idealizar profundamente a pessoa amada, transforma-se nela através do poder da imaginação. Ele afirma que, ao ter sua alma ligada à amada, já não deseja mais nada, pois em si mesmo já possui a parte que desejava. A alma do amante conforma-se com a amada, e o amor torna-se uma busca pela perfeição, uma ideia pura e idealizada. O poeta sugere que o amor verdadeiro transcende a separação entre corpo e alma, tentando unir-se de forma plena à pessoa amada, como uma matéria buscando sua forma ideal.
- 2023/02/13
Camões revisitado por Herberto Helder
https://www.luisdecamoes.pt/2023/02/soneto-de-camoes-revisitado-por.html?m=1AS VOLTAS – o poema "Tríptico" (parte I) de Herberto Helder
"Transforma-se o amador na coisa amada", com seu
feroz sorriso, os dentes,
as mãos que relampejam no escuro. Traz ruído
e silêncio. Traz o barulho das ondas frias
e das ardentes pedras que tem dentro de si.
E cobre esse ruído rudimentar com o assombrado
silêncio da sua última vida.
O amador transforma-se de instante para instante,
e sente-se o espírito imortal do amor
criando a carne em extremas atmosferas, acima
de todas as coisas mortas.
Transforma-se o amador. Corre pelas formas dentro.
E a coisa amada é uma baía estanque.
É o espaço de um castiçal,
a coluna vertebral e o espírito
das mulheres sentadas.
Transforma-se em noite extintora.
Porque o amador é tudo, e a coisa amada
é uma cortina
onde o vento do amador bate no alto da janela
aberta. O amador entra
por todas as janelas abertas. Ele bate, bate, bate.
O amador é um martelo que esmaga.
Que transforma a coisa amada.
Ele entra pelos ouvidos, e depois a mulher
que escuta
fica com aquele grito para sempre na cabeça
a arder como o primeiro dia do verão. Ela ouve
e vai-se transformando, enquanto dorme, naquele grito
do amador.
Depois acorda, e vai, e dá-se ao amador,
dá-lhe o grito dele.
E o amador e a coisa amada são um único grito
anterior de amor.
E gritam e batem. Ele bate-lhe com o seu espírito
de amador. E ela é batida, e bate-lhe
com o seu espírito de amada.
Então o mundo transforma-se neste ruído áspero
do amor. Enquanto em cima
o silêncio do amador e da amada alimentam
o imprevisto silêncio do mundo e do amor.
HERBERTO HELDER
(1930-2015)
O amor em visita. - "plaquette" de 14 p. - Lisboa: Contraponto, 1958.
A colher na boca. Lisboa. Edições Ática, 1961.
Ou o poema contínuo. Lisboa: Assírio & Alvim, 2004.
[Texto transcrito da Web, confrontando várias fontes]
Herberto Helder de Oliveira foi um poeta português, considerado por alguns o "maior poeta português da segunda metade do século XX" e um dos mentores da Poesia Experimental Portuguesa. Nascimento: 23 de novembro de 1930, Funchal. Falecimento: 23 de março de 2015, Cascais