Tengarinha, Margarida

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Margarida Tengarrinha

Nasceu em Portimão, em 7 de maio de 1928.
Professora.
Escritora.
Resistente Antifascista.
Política.

  • Excerto do livro de Margarida Tengarrinha "Memórias de uma Falsificadora – a Luta na Clandestinidade pela Liberdade em Portugal", edições Colibri, 2018

A VOZ DAS CAMARADAS DAS CASAS DO PARTIDO

Foi em princípios de 1956 que o Pires Jorge me entregou um boletim interno intitulado “Três Páginas” dedicado às camaradas do quadro clandestino do Partido e com a colaboração destas. Disse-me que a publicação desse boletim tinha sido iniciada dez anos antes, em Janeiro de 1946, com o objetivo de elevar o nível político e cultural das camaradas, prepará-las para enfrentar a PIDE em caso de prisão e quebrar o seu isolamento, o que demonstrava a preocupação da direção do Partido pela situação difícil das mulheres na clandestinidade.
Era uma publicação muito interessante e útil pelo seu conteúdo, mas péssima e monótona do ponto de vista gráfico, gravada em stêncil e muito mal impressa. Foi essa a opinião que dei depois da sua leitura. Acrescentei ainda que “Três Páginas” era um título sem qualquer sentido, além de que na verdade eram três folhas, portanto seis páginas e não três.
Algum tempo depois, o nosso “Gomes” veio dar-me uma nova incumbência: passaria a ser eu responsável pela publicação do boletim interno e escolheríamos outro título. Assim “A Voz das Camaradas” nasceu dessas “Três Páginas” e foi a sua continuação, mas com melhor apresentação gráfica e com um belo cabeçalho executado pelo Zé, em linóleo. Eu redigia o editorial e as ilustrações eram quase todas desenhadas por mim, umas a partir de gravuras em linóleo, outras abertas no stêncil, tal como os títulos dos artigos. A execução do stêncil também era mais cuidada, assim como a paginação. Mas o processo de impressão continuava a ser o mais primitivo e simples possível, com a folha de stêncil presa a uma moldura de madeira com uma rêde, que se articulava com duas charneiras sobre uma prancheta, onde colocávamos o papel a imprimir, premindo um rolo tintado sobre a rêde. Tudo manual e sem ruído, tirando uma a uma as páginas impressas.

  • Mulheres de Abril: Testemunho de Margarida Tengarrinha

Desde a sua publicação, em 1946, “Três Páginas” tinha sido uma boa forma de promover o contacto entre as mulheres confinadas nas casas clandestinas, muitas delas sem tarefas políticas para além da defesa da casa, algumas que, por terem entrado na clandestinidade para acompanhar o marido, necessitavam de apoio político que lhes desse a noção da importância e da responsabilidade do seu trabalho, e, como se percebia pelas colaborações no boletim, as camaradas mais experientes e com grande desenvolvimento político davam uma importante contribuição para o estímulo cultural e o esclarecimento das outras, através do boletim.
Fiquei radiante com a tarefa que, embora sendo muito diferente, tinha algumas semelhanças com o trabalho executado por mim no “Modas e Bordados” que, sob a orientação de Maria Lamas, tinha deixado de ser somente uma frívola revista feminina, elevando o seu nível cultural e passando a abordar a situação e problemas da mulher na sociedade.
“A Voz das Camaradas”, para além de procurar elevar o nível cultural, político e ideológico das mulheres das casas do Partido, teve também um papel reivindicativo em relação à forma como os quadros femininos eram encarados, quer pela direção, quer principalmente pelos respetivos companheiros. Pelos artigos enviados para o boletim, mas principalmente pelas cartas enviadas à redação, muito mais explícitas, percebia-se que em grande parte das casas clandestinas, as mulheres não participavam nas reuniões regulares aí realizadas. Essa foi a primeira e mais importante questão reivindicativa levantada pelo boletim, que teve alguns resultados positivos, iniciando-se em muitas casas a participação das camaradas na primeira parte da reunião em que se discutia a situação política nacional e internacional e algumas das lutas desencadeadas no respetivo setor, antes de se especificarem, é claro, as questões orgânicas que eram tratadas só por quem nelas intervinha.
Alguma coisa melhorou com essa campanha iniciada pela “Voz das Camaradas”.
Mas a verdade é que a mais significativa mudança foi a que teve lugar depois da fuga de dez camaradas, entre eles Álvaro Cunhal, da fortaleza de Peniche, no dia 3 de janeiro de 1960. Com esses importantes quadros, na sua maioria da direção central, muitos aspetos, quer da linha política e ideológica do Partido, quer da organização do trabalho de direção, foram discutidos e alterados (de que falarei mais adiante) e, no que dizia respeito às camaradas mulheres, as questões do tratamento e promoção das militantes na organização partidária, assim como a situação das que vivíamos nas casas clandestinas.
Assim, foram iniciados vários inquéritos dirigidos a nós, o primeiro dos quais, em abril de 1960, pretendia respostas sobre quais as tarefas que desempenhávamos para além do trabalho doméstico, que acompanhamento político nos era proporcionado, se participávamos nas reuniões em nossa casa e que tipo de auxílio em relação à nossa vida, ao nosso trabalho e às nossas aspirações desejávamos que nos fosse dado pelo Secretariado do Comité Central, que assinava o inquérito.
Na verdade, não foram conseguidas alterações substanciais no que dizia respeito a novas tarefas, pois as camaradas que defendiam as casas do Partido não podiam ter simultaneamente trabalho de organização de rua, que aumentaria os riscos do camarada da casa na organização onde trabalhava. Mas sentimo-nos encorajadas a ser muito mais reivindicativas quanto à nossa participação nas decisões sobre a vida nas casas clandestinas, invocando o inquérito do Secretariado. E as camaradas, mesmo as que só tinham tarefas domésticas, passaram a ser encaradas com muito maior respeito, inclusivamente pelos companheiros que as tinham trazido à vida clandestina, muitos dos quais pensavam que, acompanhando-os, não cumpriam mais que um dever conjugal.


  • Biografia
 Iniciou a sua atividade política organizada em 1948, integrada no MUD Juvenil, na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa (ESBAL).Em meados de 1952 foi expulsa da ESBAL, proibida de frequentar todas as Faculdades do país e impedida de lecionar na Escola Preparatória Paula Vicente, onde era professora, pela sua ativa participação na luta pela Paz, pelo desarmamento atómico e contra a reunião ministerial da NATO em Lisboa.Nesse ano tornou-se militante do PCP.
Em 1955 passou à militância clandestina do PCP com o seu companheiro José Dias Coelho, que foi assassinado a tiro pela PIDE em 19 de dezembro de 1961.
De 1962 a 1968 trabalhou com Álvaro Cunhal e depois como redatora da Rádio Portugal Livre.
Depois do 25 de Abril foi membro do Comité Central do PCP e deputada do PCP pelo Algarve.
Em 2016 recebeu o Prémio Maria Veleda da Direção Regional de Cultura do Algarve.
Continua a ser Professora de História de Arte na Universidade Sénior de Portimão.
In: https://www.wook.pt/autor/margarida-tengarrinha/2160825
  • Bibliografia

1990 - Samora Barros: Pintor do Algarve
1999 - Da memória do povo: recolha da literatura popular de tradição oral do concelho de Portimão
2004 - Quadros da Memória
2006 - A Resistência em Portugal (Escrito com José Dias Coelho, no seguimento de uma sugestão de Álvaro Cunhal, alojado com Tengarrinha e Coelho após a Fuga de Peniche. O livro foi publicado primeiramente no Brasil sob o pseudónimo de "Amílcar Gomes Duarte", nome inventado a partir dos nomes de clandestinidade dos principais dirigentes comunistas da época: Amílcar era pseudónimo de Sérgio Vilarigues, Gomes de Pires Jorge e Duarte de Álvaro Cunhal. O livro foi mais tarde publicado em Russo em Moscovo sob o nome de José Dias Coelho
2018 - Memórias de uma falsificadora (autobiografia)

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  • Ilustrações

1999 - Um Algarve outro, contado de boca em boca: estórias, ditos, mezinhas, adivinhas e o mais texto de Glória Marreiros
2015 - Leonor Leonoreta : ensaio de ternura : novela poética, texto de Filipe Chinita

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  • Pode saber mais sobre Margarida Tengarrinha nos seguintes links:

- 2018 - Artigo do público com o título "Margarida Tengarrinha, a “avó radical” da praia da Rocha, faz 90 anos"
- 2018 - Notícia com o título "Resistência antifascista - Margarida Tengarrinha: “Tenho cá dentro uma fúria muito grande com a impunidade dos assassinos da PIDE”"
- 2019 -Artigo do jornal Sul Informação" com o título "Margarida Tengarrinha explica em Albufeira a ditadura que ajudou a derrubar"
- 2015 - Artigo de "O Observador" com o título "O meu amor clandestino. Histórias de liberdade"
- 2017 - Testemunho de Margarida Tengarrinha "Vidas Prisionáveis"
- 2018 - Blogue de João Esteves com um texto sobre a vida da autora e a sua obra "Memórias de uma Falsificadora"
- 2014 - Algarvia Margarida Tengarrinha foi distinguida em Portimão com o prémio Maria Veleda
- 2008 - Margarida Tengarrinha, companheira do artista plástico assassinado pela PIDE em Dezembro de 1961 numa rua de Lisboa, foi a convidada de mais uma sessão de “Encontros e Desencontros”
- 2021 - Texto sobre a "Fuga de Peniche" com ilustração de Margarida Tengarrinha