Mudam-se os tempos, mudam-se as vontade - Soneto - Luís de Camões
Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança:
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve) as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.
E afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.
O soneto reflete sobre a inevitabilidade da mudança em todos os aspetos da vida. O tempo altera tudo: vontades, sentimentos, esperanças e até mesmo as paisagens. O eu lírico lamenta essas mudanças, especialmente as que transformam alegria em tristeza e deixam apenas mágoas ou saudades. No final, ele destaca que a maior surpresa é que até a própria natureza das mudanças parece diferente, mais imprevisível do que antes.
Indicações para leitura em voz alta
1. Tom reflexivo: Use uma entoação meditativa e pausada, destacando o caráter filosófico do poema.
2. Ênfase nos contrastes: Realçar os opostos, como “verde manto” e “neve fria” ou “doce canto” e “choro”.
3. Ritmo constante: Seguir um ritmo fluido, mas com pequenas pausas nas vírgulas para marcar as ideias sucessivas.
4. Final com intensidade: No verso “Que não se muda já como soía”, enfatizar o "espanto" e a perplexidade do eu lírico diante da transformação.
5. Variedade de tons: Adaptar a voz ao conteúdo, tornando-a mais melancólica ao falar das mágoas e saudades e mais admirada ao tratar das mudanças do tempo.
- Para saber mais:
Inspirações Contemporâneas sobre o mesmo tema:
Variação Camoniana por Nuno Júdice
Se estas mudanças são como outras
que foram o que já antes tinham de ser,
que mudanças serão, agora que tudo
permanece do que mudou, e não é?
Ou será apenas o que fica a imagem
do que mudou, sabendo que entre
mudar e ficar não há ser que mude,
quando todo o ser o é sem mudar?
Assim, mudo o ser que não mudou
só para que tudo fique sem mudar;
e ao ver o que mudou, volto a ser
o que sempre fui, sabendo que só
mudando havemos de ficar, e só
ficando seremos o que vai mudar.
In: JÚDICE, Nuno, 2005. Geometria Variável. Lisboa: Dom Quixote (p. 83)
MUDAM-SE OS TEMPOS, MUDAM-SE AS VONTADES
(Canção adaptada e musicada a partir do soneto de Camões por José Mário Branco e Jean Sommer, apresentada no espetáculo ENFIM JUNTOS de Fausto, Sérgio Godinho e José Mário Branco, 2009.)
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades
Muda-se o ser, muda-se a confiança
Todo o mundo é composto de mudança
Tomando sempre
Tomando sempre novas qualidades
E se todo o mundo é composto de mudança
Troquemos-lhe as voltas, que inda o dia é uma criança
Continuamente vemos novidades
Diferentes em tudo da esperança
Do mal ficam as mágoas na lembrança
E do bem
E do bem, se algum houve, as saudades
Mas se todo o mundo é composto de mudança
Troquemos-lhe as voltas, que inda o dia é uma criança
O tempo cobre o chão de verde manto
Que já coberto foi de neve fria
E em mim converte em choro o doce canto
E em mim converte
E em mim converte em choro o doce canto
Mas se todo o mundo é composto de mudança
Troquemos-lhe as voltas, que inda o dia é uma criança
E afora este mudar-se cada dia
Outra mudança faz de mor espanto
Que não se muda já como soía
Que não se muda
Que não se muda já como soía
Mas se todo o mundo é composto de mudança
Troquemos-lhe as voltas, que inda o dia é uma criança
- O mesmo poema na voz de Rui Reininho:
Dizer um poema é um prazer sem regras. Não é preciso ser ator ou ter um timbre de voz especial; é dizer, sentindo cada palavra. Como o cantor Rui Reininho diz este "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades", de Luís de Camões.
https://ensina.rtp.pt/artigo/mudam-se-os-tempos-mudam-se-as-vontades-de-luis-de-camoes/
