Ilha dos Amores - Lusíadas - Canto IX -Estrofes 52 a 65
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A Ilha dos Amores
O episódio da "Ilha dos Amores" d'Os Lusíadas de Luís de Camões é um dos momentos mais emblemáticos da epopeia. Nele, a deusa Vénus, protetora dos navegadores portugueses, decide recompensá-los pelas suas conquistas, proporcionando-lhes um descanso merecido numa ilha paradisíaca habitada por ninfas. Com a ajuda de Cupido, Vénus desperta o amor nas ninfas, que acolhem os marinheiros com afeto e celebrações. Este encontro simboliza a união entre o humano e o divino, elevando os navegadores ao estatuto de heróis imortalizados. Além disso, a estadia na ilha representa uma recompensa pelas suas façanhas e uma prefiguração das glórias futuras de Portugal.
In: Infopedia
| Os Lusíadas | - | Los Lusiadas |
|---|---|---|
| 52- De longe a Ilha viram, fresca e bela, Que Vénus pelas ondas lha levava (Bem como o vento leva branca vela) Pera onde a forte armada se enxergava; Que, por que não passassem, sem que nela Tomassem porto, como desejava, Pera onde as naus navegam a movia A Acidália, que tudo, enfim, podia. |
- | 52- De lejos ven la isla, dulce estela Que Vénus por las ondas les llevaba (Tal como lleva el viento blanca vela) Guiándola á la flota que buscaba; Que porque no pasase sin cautela, Y aportasen allí cual deseaba, Accidália, que todo lo podia, Hácia dó el mar, cortaban, la movia, |
| 55- Num vale ameno, que os outeiros fende, Vinham as claras águas ajuntar-se, Onde ũa mesa fazem, que se estende Tão bela quanto pode imaginar-se. Arvoredo gentil sobre ela pende, Como que pronto está pera afeitar-se, Vendo-se no cristal resplandecente, Que em si o está pintando propriamente. |
- | 55- En valle que los dos oteros hiende Iban las claras ondas á juntarse, Donde un remanso forman, que se estiende Bello, cuanto no es dado el idearse: Arboledo gentil sobre ese pende, Que cual contento está de acicalarse, Viéndose en el cristal terso y pulido, Que lo retrata su esplendor florido. |
| 56- Mil árvores estão ao céu subindo, Com pomos odoríferos e belos; A laranjeira tem no fruito lindo A cor que tinha Dafne nos cabelos. Encosta-se no chão, que está caindo, A cidreira cos pesos amarelos; Os fermosos limões ali cheirando, Estão virgíneas tetas imitando. |
- | 56- Entre pomas el aire embalsamando, Mil arbustos al cielo alzan los cuellos: El naranjo en su fruto va ostentando El color que usó Dafne en los cabellos: Se enreda en el jazmin que está flotando, Ya el citronero con sus frutos bellos, Ya el limon con sus puntas naturales, Imitando los pechos virginales. |
| 58- Os dons que dá Pomona ali Natura Produze, diferentes nos sabores, Sem ter necessidade de cultura, Que sem ela se dão muito melhores: As cerejas, purpúreas na pintura, As amoras, que o nome têm de amores, O pomo que da pátria Pérsia veio, Melhor tomado no terreno alheio; |
- | 58- Los dones de Pomona allí natura Diferentes produce en los sabores, Sin haber menester de la cultura, Pues silvestres se crian superiores: La cereza de vívida pintura: Las moras recordando otros amores, La poma que de Persia da el terreno, Y se torna mejor en el ajeno. |
| 59- Abre a romã, mostrando a rubicunda Cor, com que tu, rubi, teu preço perdes; Entre os braços do ulmeiro está a jocunda Vide, cuns cachos roxos e outros verdes; E vós, se na vossa árvore fecunda, Peras piramidais, viver quiserdes, Entregai-vos ao dano que cos bicos Em vós fazem os pássaros inicos. |
- | 59- Luce allí la romana rubicunda Color con quien el suyo el rubí pierde: La vid con sus racimos va jocunda, Del olmo entre los brazos que le muerde: Y á tí, piramidad pera fecunda, Por madurar sobre tu rama verde, Te veo darte al mal, que con sus picos Hacen en ti los pájaros más chicos. |
| 61- Para julgar, difícil cousa fora, No céu vendo e na terra as mesmas cores, Se dava às flores cor a bela Aurora, Ou se lha dão a ela as belas flores. Pintando estava ali Zéfiro e Flora As violas da cor dos amadores, O lírio roxo, a fresca rosa bela, Qual reluze nas faces da donzela; |
- | 61- Y juzgar es difícil, viendo ahora En cielo y tierra iguales los colores, Si á la flor da color la bella Aurora, O si á ella lo dan las bellas flores. Pintando están allí Céfiro y Flora Las viólas como rostro de amadores, Y el rojo lirio y fresca rosa bella, Cual mejillas de púdica doncella. |
| 64- Nesta frescura tal desembarcavam Já das naus os segundos Argonautas, Onde pela floresta se deixavam Andar as belas Deusas, como incautas. Algũas, doces cítaras tocavam; Algũas, harpas e sonoras frautas; Outras, cos arcos de ouro, se fingiam Seguir os animais, que não seguiam. |
- | 64- En tan risueño Eden el pie ponian De la mar los segundos Argonautas, A dó por la floresta se fingian Andar las diosas lindas, como incautas: De ellas algunas, cítaras tañian, Algunas, arpas y sonoras flautas: Otras, con arcos de oro, que persiguen Figuran animales, que no siguen. |
| 65- Las aconseja así Ciprina esperta Que vaguen por los campos derramadas, Y vista de varon la presa incierta, Que no dejen de hacerse deseadas. Algunas, que en la forma descubierta Del peregrino cuerpo están confiadas, Ponen artificiosas su hermosura, Desnudas, á lavar en agua pura. |
- | 65- Assi lho aconselhara a mestra experta: Que andassem pelos campos espalhadas; Que, vista dos barões a presa incerta, Se fizessem primeiro desejadas. Algũas, que na forma descoberta Do belo corpo estavam confiadas, Posta a artificiosa formosura, Nuas lavar se deixam na água pura. Los lusiadas en español aquí |
- Para compreender melhor:
Estrofe 52 - A armada vê ao longe uma ilha fresca e bela, que é guiada por Vénus através das ondas, como o vento conduz uma vela. A ilha apresenta-se como um local onde os navegadores devem parar, um ponto de descanso necessário antes de seguir viagem. A deusa Acidália (ou Vénus) move as naus e controla o destino da jornada, garantindo que a paragem aconteça conforme o desejo divino.
Estrofe 55 - Camões descreve uma cena natural idílica, onde a natureza parece estar em perfeita harmonia. O vale, com suas águas claras e o arvoredo que se reflete nas águas, é apresentado como um espaço de serenidade e beleza incomparável. A metáfora da água como "cristal resplandecente" e a imagem das árvores "afeitando-se" no reflexo ressaltam a ideia de que a natureza é uma obra de arte, moldada por forças divinas e perfeitas.
Estrofe 56 - Camões descreve uma paisagem rica em árvores frutíferas, com laranjeiras, limoeiros e cidreiras, cujos frutos são tão belos e aromáticos que parecem quase humanos. A laranjeira, com seu fruto dourado, é comparada aos cabelos de Dafne, uma figura mitológica. A cidreira e os limões, com seus aromas intensos, são descritos de forma sensual, evocando imagens de feminilidade e pureza. A estrofe celebra a beleza natural de uma forma tanto visual quanto sensorial, exaltando a perfeição da natureza divina.
Estrofe 58 - Camões descreve os frutos generosos que a natureza, representada pela deusa Pomona, oferece. Ele destaca que esses frutos, como as cerejas e as amoras, são melhores quando não são cultivados artificialmente, mas crescem de forma selvagem e natural. A estrofe também associa os frutos ao prazer e ao amor, e sugere que até frutas de terras distantes, como o pomo da Pérsia, podem prosperar melhor noutros lugares. É uma celebração da pureza e beleza da natureza.
Estrofe 59 - Camões continua a exaltar a beleza das frutas e a natureza, mas com um tom mais reflexivo e até um pouco melancólico, associando o prazer da fruição ao destino inevitável da destruição e do ciclo natural da vida.
Estrofe 61 - Camões reflete sobre a difícil tarefa de julgar a origem da beleza, questionando se é a Aurora que dá cor às flores ou se são as flores que a embelezam. Ele descreve Zéfiro e Flora pintando as flores, como as violas e o lírio, cujas cores vibrantes lembram a beleza de uma donzela.
Estrofes 64 e 65 - Camões descreve a chegada das Deusas à ilha, onde se comportam de maneira sedutora e encantadora, como se estivessem num cenário de florestas e campos. Elas tocam instrumentos como cítaras e harpas, ou fingem-se caçadoras com arcos de ouro. A mestra experta aconselhou as deusas a espalharem-se pelos campos para se tornarem mais desejadas pelos heróis. Algumas, confiantes na sua beleza, banham-se nuas na água pura, usando a sua aparência para seduzir.
- Para saber mais:
1.-Excerto de "uma conversa a propósito do 10 de Junho e de uma nova antologia de Camões, [onde] Frederico Lourenço e Francisco José Viegas falaram sobre a vida do poeta, a forma como Os Lusíadas foram lidos ao longo dos séculos e a outra obra mítica da literatura portuguesa.
(...)
FJV: Antes do Canto X vem o célebre Canto IX, que todos nós mitificámos, do género: ‘Ah, na escola não líamos o Canto IX’. Não é verdade. Líamos o Canto IX. Tendo em conta que falamos do século XVI, a Inquisição estava distraída? Houve uma distracção fatal? O inquisidor não leu? [risos]
FL: Perguntamo-nos como é que o livro de António José Saraiva saiu em 1959. Isso não é nada em comparação com esta dúvida. Como é possível o Canto IX num livro que tem no frontispício a autorização da Inquisição? É uma orgia ao ar livre, não há outra maneira de olhar para tudo aquilo.
FJV: Acho que foi por ser ao ar livre que passou… [risos]
FL: Ou então por estar no canto IX. Era preciso ler muita coisa para chegar lá. Talvez Camões tenha planeado isso muito bem. Talvez tenha partido do princípio: ‘Se eu puser isto no penúltimo canto, talvez eles não cheguem tão longe e não leiam’. Eu diria que é se calhar a parte mais universal d’Os Lusíadas. É a parte que tem que ver com a importância do amor, da sexualidade, que são, claro, duas realidades que Camões vive muitas vezes de forma desesperada, atormentada. Camões escreve permanentemente sobre amores que não dão certo, como nós dizemos hoje em dia, mas no Canto IX d’Os Lusíadas, sim, dá certo. O sexo e o amor são coisas que não trazem frustração, como acontece na Lírica de Camões. São só felicidade e êxtase.
(...)
https://sol.sapo.pt/2024/06/26/frederico-lourenco-cada-vez-mais-me-convenco-de-que-os-lusiadas-sao-tambem-imagens/
https://www.youtube.com/watch?v=cPkkM5sm10A
Francisco José Viegas nasceu em 1962. Professor, jornalista e editor, é responsável pela revista Ler e foi também diretor da revista Grande Reportagem e da Casa Fernando Pessoa. De junho de 2011 a outubro de 2012 exerceu o cargo de Secretário de Estado da Cultura. Colaborou em vários jornais e revistas, e foi autor de vários programas na rádio e televisão.
Frederico Lourenço Ensaísta, tradutor, ficcionista e poeta, Frederico Lourenço nasceu em Lisboa, em 1963, e é atualmente professor associado com agregação da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e membro do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da mesma instituição. Foi docente, entre 1989 e 2009, da Universidade de Lisboa, onde se licenciou em Línguas e Literaturas Clássicas (1988) e se doutorou em Literatura Grega
Sobre a imagem Ilha dos Amores
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Recurso: Imagem livre de direitos de autor
Pintura de José Malhoa, inspirada no episódio da Ilha dos Amores (1908) no Museu Nacional Soares dos Reis
No centro da pintura, em primeiro plano, está uma figura feminina nua que “se alonga de costas, agarrando o homem que, por sua vez, a agarra possessivamente, numa sensualidade poderosa com eco na exuberância da paleta da paisagem edénica que os envolve”. Outro casal aproxima-se ao longe, sendo visível a nudez da Ninfa. In:https://pt.wikipedia.org/wiki/Ilha_dos_Amores_(Malhoa)
Sobre a imagem Vasco da Gama na Ilha dos Amores
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Recurso: Imagem livre de direitos de autor
"Vasco da Gama na Ilha dos Amores"
Desenho de Alexandre-Joseph Desenne; gravura de Richomme inspirada no episódio da Ilha dos Amores
In: "Os Lusíadas", ed. Morgado de Mateus, Paris, 1817.