Grade, Fernando Silva

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  • Fernando Silva Grade

Faro, 01/01/1955 - Faro, 08/09/2019

Biólogo. Pintor. Artista plástico, defensor do património edificado e natural do Algarve. Agraciado com a Medalha de Mérito Grau Ouro de Faro. 
  • Texto sobre Duarte Infante, seu primo e um dos donos da papelaria Silva,uma das mais importantes da cidade de Faro, durante o século XX

Duarte Infante (1927-2010)
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Duarte Infante, presença habitual nos eventos culturais e cívicos da cidade de Faro, foi um dos três proprietários da antiga "Papelaria e Livraria Silva", juntamente com Eduardo João da Silva e Manuel Costa.
Transcrevo alguns trechos de uma entrevista que saiu no suplemento cultural "S" do jornal "Postal do Algarve", realizada por Salvador Santos em Março de 2009.
Duarte Infante nasceu, no ano de 1927, no seio de uma família da média burguesia. O pai, que hoje se poderia considerar de esquerda, era do Alentejo, de Mértola, e veio para o Algarve como empregado comercial. Casou em Faro e teve dois filhos, o Duarte Infante e um irmão.
O destino de Duarte, ainda que ninguém o pudesse prever, começou-se a desenhar, 5 anos antes de ter nascido, em 1922, quando o seu tio, Eduardo, fundou, em Faro a "Papelaria e Livraria Silva".
O seu tio Eduardo João da Silva, natural de Évora, estabeleceu-se em Faro por intervenção do irmão mais velho, o Sr. Joaquim da Silva Nazareth. Quando cá chegou foi ocupar o edifício onde hoje funciona o Café Aliança. Passados poucos anos o José Pedro da Silva, que tinha comprado o edifício para fazer o café, deu-lhe qualquer importância para ele ir para o sítio onde antigamente tinha porta aberta uma mercearia e, hoje funciona a farmácia Caniné. "O meu tio foi para aí e até ao fim da "Livraria Silva" ficou sempre nesse sítio. A Livraria, que com o tempo, foi ampliando o seu âmbito, alargou as suas instalações com uma secção de brinquedos e, depois, uma de artigos fotográficos."
«Pela morte de meus tios, a livraria ficou dividida entre mim e a minha prima, Maria de Lurdes, ficámos com a livraria e depois vendemos aquilo ao Capela que ainda esteve ali alguns anos e depois acabou com aquilo também. Estive lá a trabalhar com ele dois ou três anos e sai quando me reformei em 1992. Era uma ambição antiga do Capela ficar com a "Livraria Silva", ele que já possuía um estabelecimento congénere antes do meu tio Eduardo chegar a Faro".
"Tinha o gosto pelos livros porque o meu pai também era uma pessoa que lia muito. Tinha uma biblioteca razoável naquele tempo. Eu estava sempre a ler. Tinha um livro em cada casa que corria. Lia em casa, se ia almoçar à do meu tio tinha lá um livro também. O mesmo acontecia na loja quando havia algum tempo livre. Eu, o meu pai, o meu irmão e mesmo a minha mãe líamos muito. Éramos pessoas dedicadas aos livros."
A biblioteca do pai era composta por obras de Eça de Queiroz, do padre António Vieira, do Camilo Castelo Branco, entre outros e por uma secção bem generosa de livros de história. O seu tio não era dedicado à leitura era sobretudo um homem de negócios. Era respeitado enquanto pessoa séria, cumpridora, muito conceituada na cidade.
Pela livraria passaram, Emiliano da Costa, Lyster Franco, Marques da Silva, Cândido Guerreiro, António Ramos Rosa, Virgílio Ferreira, Gastão Cruz, Casimiro de Brito, Luísa Neto Jorge, entre outras figuras literárias e personalidades interessantes. Do poeta de Alte, veio a lume o "Auto das Rosas de Santa Maria" primeira e única edição de Eduardo João da Silva. A livraria era um espaço de referência na cidade de Faro e por isso lá se juntava muita gente.
A partir da candidatura à Presidência da República do General Norton de Matos começou a interessar-se mais profundamente pela política. Foi criando amizades políticas especialmente com pessoas da sua idade e acabou por aderir ao MUD Juvenil e participar activamente nos trabalhos de difusão de panfletos feitos nos inevitáveis "copiógrafos", nas reuniões clandestinas, trabalhos em comissões, e nas fugas à polícia.
"A minha prisão veio da minha participação no MUD, as movimentações com Norton de Matos e depois com o Humberto Delgado. Eles sabiam que eu estava ligado a essas coisas e era natural que estivesse debaixo de olho. Fui preso por ter posto na montra da livraria a revista Seara Nova com a fotografia do Humberto Delgado na capa."
Sobre os livros proibidos diz que muitas vezes não chegavam a livraria. "Apanhavam-se por portas e travessas". A polícia aqui não era assim muito vigilante. Normalmente quem aparecia não era a polícia política era a PSP. E eles normalmente eram pessoas da terra e havia um certo entendimento, tácito, eles não queriam ser muito antipáticos e então havia sempre umas coisas escondidas.
Muitas vezes não se percebia a razão pela qual certos livros eram proibidos. Os censores não deviam muito à inteligência portanto a proibição não era muito "científica". Havia coisas anedóticas no meio disto tudo. Ao meu amigo Vargas um dia a polícia levou-lhe o retrato de um tio só porque se tinha fotografado de barbas. Hoje dá para rir mas na altura não tinha graça nenhuma.
Ainda no contexto das actividades políticas, ocorreu-lhe fundar, em Faro, um cineclube, para através do cinema também lutar contra o regime. E é disso que dá conta ao seu grande amigo João de Brito Vargas.
"Um dia saio da loja e encontro o meu amigo Vargas. Já andava com aquilo metido na cabeça há algum tempo e sugeri-lhe a fundação de um cineclube a exemplo do que sucedia noutros pontos do país. Ele aceitou a ideia de imediato, tendo sido um dos seus principais impulsionadores. Eu estava muito preso na loja, e ele como tinha mais vagar começou logo a mexer os cordelinhos. A possibilidade de aquilo ir avante era meter gente que não fosse mal vista pelos poderes e então meteu-se o Dr. Cassiano, o Baptista da farmácia, um professor do liceu e umas pessoas assim para dar um aspecto de seriedade às coisas. E então com muitas dificuldades lá se conseguiu. De tal maneira que no dia em que era para ser inaugurado não foi. Lá arranjaram um pretexto, que não me recordo qual foi, para adiarem aquilo para o outro dia, mas conseguiu-se e o Cineclube de Faro funciona ininterruptamente desde 1956, o que sob este aspecto o torna o único do país".
Duarte Infante era meu primo e com ele convivi anos a fio, querendo destacar a sua personalidade introspectiva, o seu peculiar e sofisticado sentido de humor, a sua cultura literária e a sua mentalidade despreconceituada e aberta à inovação.
Sempre atento ao movimento editorial juntou uma biblioteca fabulosa.
Na "antiga" Ilha de Faro, ainda na época em que o tempo passava devagar e os Verões eram intermináveis, apreciei a sua companhia inspiradora, juntamente com a nossa numerosa família, em saudável convivência, tertúlias e banhos de mar.
In:http://adefesadefaro.blogspot.com/2010/01/duarte-infante-1927-2010.html

  • Notas Biográficas

Trabalhou como arquitecto, embora se tenha notabilizado principalmente como activista na defesa do património cultural e natural do Algarve, tendo sido um dos sócios fundadores da associação Almargem, e participado num grande número de iniciativas na defesa da cultura e do ambiente. Iniciou o seu activismo ainda durante a juventude, nas décadas de 1970 e 1980, quando escrevia mensagens de protesto nos estaleiros de construção. Foi um crítico do forte crescimento urbanístico no Algarve.
Em Julho de 2014 lançou o livro O Algarve tal como o destruímos, sobre os problemas ambientais e paisagísticos da construção em massa no Algarve, e onde criticou o modelo do turismo de massas na região. Teve uma atenção especial na defesa do património arquitectónico, tendo protestado contra a demolição de vários edifícios, tanto em Olhão como em Faro. Em 2017, Silva Grade lançou um alerta sobre as obras na Igreja Matriz de Olhão, que estavam a ser feitas sem as autorizações necessárias, e sem a utilização de materiais e técnicas adequadas neste tipo de intervenção. Na sequência desta denúncia, as obras foram suspensas pela Direcção Regional de Cultura do Algarve. Como parte do seu activismo, escreveu vários artigos nos jornais Barlavento e Público, entre outros periódicos, e fez várias entrevistas na televisão e rádio.
Notabilizou-se igualmente como artista plástico, tendo pintado principalmente os temas do património e da natureza algarvia.
Participou em várias exposições desde 1988, tanto a nível individual como colectivo, em vários pontos do país e no estrangeiro. Foi um dos artistas convidados na exposição Lisboarte, entre Março e Abril de 2006. Em 2016 realizou a sua última exposição antológica, Trajectos, no Museu Municipal de Faro e na Galeria Arco, com grande êxito.

  • Bibliografia

- A minha 5ª feira, 25 de Abril
- O Algarve, Tal Como o Destruímos (2014)

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  • Pinturas

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  • Pode saber mais sobre Fernando Silva Grade nos seguintes links:

- Vídeo de Fernando Silva Grade sobre a sua pintura e a exposição das suas obras
- Artista plástico Fernando Grade morre aos 64 anos
- Artigo da wikipédia
- Morreu Fernando Grade, artista plástico e defensor de causas, por Elisabete Rodrigues • 8 de Setembro de 2019 - 21:02 Tinha lançado, em 2014, o livro "O Algarve tal como o destruímos"
- Artigo da Almargem sobre o falecimento de Fernando Silva Grade
- Exposição «Trajectos» reúne a obra de Fernando Silva Grade
- Faleceu Fernando Silva Grade, biólogo, artista e defensor do Algarve
- Faro homenageou os muitos “Fernandos” que foi Silva Grade, por Hugo Rodrigues • 8 de Novembro de 2019 - Homenagem foi feita por diversas entidades às quais o falecido artista plástico e ativista esteve ligado
- Faro vai ter Passeio Fernando Silva Grade
- Pinturas