A Chegada à Índia - Lusíadas - Canto VII - Estrofes 16 a 59 - Luís de Camões
- Sugestão de leitura do episódio "A Chegada à Índia", em 20 de Maio de 1498. É o primeiro texto literário europeu cuja ação se desenrola no subcontinente indiano, retratando os primeiros contactos entre os portugueses e o Outro da costa do Malabar. (estrofes 17,18 e19)
17
Além do Indo jaz e aquém do Gange
Um terreno mui grande e assaz famoso
Que pela parte Austral o mar abrange
E pera o Norte o Emódio cavernoso.
Jugo de Reis diversos o constrange
A várias leis: alguns o vicioso
Mahoma, alguns os Ídolos adoram,
Alguns os animais que entre eles moram.
18
Lá bem no grande monte que, cortando
Tão larga terra, toda Ásia discorre,
Que nomes tão diversos vai tomando
Segundo as regiões por onde corre,
As fontes saem donde vêm manando
Os rios cuja grão corrente morre
No mar Índico, e cercam todo o peso
Do terreno, fazendo-o quersoneso
19
Entre um e o outro rio, em grande espaço
Sai da larga terra ũa longa ponta,
Quási piramidal, que, no regaço
Do mar, com Ceilão ínsula confronta;
E junto donde nasce o largo braço
Gangético, o rumor antigo conta
Que os vizinhos, da terra moradores,
Do cheiro se mantêm das finas flores.
Na estrofe (17) faz-se a descrição geográfica e cultural da Índia, destacando a sua vastidão territorial e a diversidade cultural e religiosa, localizando-a entre dois grandes rios asiáticos, o Indo e o Ganges.
Notas:
"Pela parte Austral o mar abrange": Refere-se ao Oceano Índ co ao sul.
"Pera o Norte o Emódio cavernoso": O "Emódio" remete aos Himalaias, descritos como "cavernosos" devido às suas escarpas e montanhas.
"Jugo de Reis diversos o constrange a várias leis": Representa os múltiplos reinos e sistemas legais presentes na região, mostrando um mundo politicamente fragmentado.
Camões menciona o islamismo ("Mahoma"), religiões idólatras e até o culto a animais, ressaltando o exotismo da Índia para os leitores europeus da época.
Sugestões para ler a estrofe 17 em voz alta:
1. Compreender o Ritmo do verso Decassilábico Heroico que tem acento principal na 6ª e 10ª sílabas. Por exemplo:
"A-lém do In-do jaz e aquém do Gan-ge"
Respeitar esse ritmo dá musicalidade à leitura.
2. Dividir a Estrofe em Blocos de Sentido:
Primeiro quarteto (versos 1-4): Contexto geográfico e grandiosidade.
Um tom descritivo e admirado, pausa após "famoso" no segundo verso para enfatizar o impacto do lugar.
Exemplo de pausa:
"Além do Indo jaz e aquém do Gange,
Um terreno mui grande e assaz famoso: (pausa breve)
Que pela parte Austral o mar abrange,
E pera o Norte o Emódio cavernoso."
Segundo quarteto (versos 5-8): Diversidade cultural e contraste.
Usar um tom mais reflexivo e variado, destacando os contrastes entre as religiões e crenças.
Para o último verso, diminuir o ritmo ao mencionar "os animais", realçando o exotismo.
3. Ajustar a Entoação
Enfatizar as palavras-chave:
"mui grande", "assaz famoso" (grandeza);
"diversos", "vicioso", "adoram" (contraste cultural).
No último verso, suavizar levemente a voz em "os animais", marcando uma leve estranheza ou fascínio.
4. Trabalhar as Pausas.
Fazer pausas naturais ao final de. cada verso, mas sem quebrar o fluxo narrativo.
Usar pausas internas após vírgulas para reforçar o sentido. Por exemplo:
"Jugo de Reis diversos o constrange, (pausa breve)
A várias leis: (pausa breve) alguns o vicioso
Ma-ho-ma, (pausa breve) alguns os Ídolos adoram,
Alguns os animais que entre eles moram."
5. Projetar a Voz e Variar a Velocidade.
Manter um tom firme e claro, para dar destaque a momentos importantes.
Começar cada quarteto em tom alto e diminuir no final de cada linha para criar cadência.
Nas estrofes 18 e 19, Camões continua a descrever a Índia à chegada de Vasco da Gama, em 1498, assinalando os Himalaias, a península e o oceano Índico.
Notas:
A "longa ponta" que se estende em formato "quási piramidal" representa a Península Indiana, confrontando-se com a ilha de Ceilão (atual Sri Lanka) no Oceano Índico.
A menção ao "largo braço Gangético" refere-se ao delta do rio Ganges, uma região de grande importância histórica e cultural.
Camões menciona uma lenda sobre os habitantes locais que supostamente sobrevivem "do cheiro das finas flores", reforçando o caráter maravilhoso e exótico da região para os leitores europeus.
Para saber mais:
- Uma leitura intercultural d’Os Lusíadas: o episódio da Chegada à Índia
A epopeia Os Lusíadas, publicada há 450 anos, (...) é a primeira obra da literatura europeia que descreve o subcontinente indiano.
A Índia só reaparece na literatura europeia dois séculos mais tarde, com a publicação, na década de 1780, em Inglaterra, das primeiras “narrativas indianas”. No entanto, o género só em 1888 viria a popularizar-se com as Plain Tales from the Hills, de Rudyard Kipling (Buda, 1985), uma antologia de contos, dois dos quais estão publicados, em Portugal, nos Três Contos da Índia (1998) – “Para lá da cerca” e “O portão das cem mágoas” sendo este último considerado um dos melhores romances alguma vez escritos sobre a Índia (Buda, 1985). Em 1907, Kipling foi o primeiro escritor de língua inglesa a ser galardoado com o Prémio Nobel.
Pode ler o artigo completo Uma leitura intercultural d’Os Lusíadas: o episódio da Chegada à Índia in:
https://pnl2027.gov.pt/np4/entreler/entreler2_umaleitura.html
- Entendendo Os Lusíadas #60: A chegada dos portugueses às terras da Índia
in: https://entender.net.br/entendendo-os-lusiadas-60-a-chegada-dos-portugueses-as-terras-da-india/
- A Tempestade e a Chegada à Índia (Os Lusíadas - Canto VI - 70-94)
Prof. J.P.Vasconcelos
https://www.youtube.com/watch?v=LGcPUqsgwvw
- Recursos
Obra no domínio público. Conteúdo reutilizável livremente (Public Domain Mark).
A partida de Vasco da Gama para a India em 1497 - Roque Gameiro - 1 gravura: litografia, color.