Stockler, José dos Santos

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José dos Santos Stockler
Porches, Lagoa - 22/05/1910 - Faro, 06/1989.

Poeta. Jornalista. 


  • Radiografia


Na ânsia de calar a voz do grito
Rebelde que desdenha a minha dor,
Na luz do meu olhar só anda escrito,
Em letra luminosas, Paz e Amor!...

Nos lábios trago a húmida expressão
Apenas da linguagem da Verdade,
Essa voz que alimenta a mãe Razão,
Nascente aonde bebe a Fel’cidade!...

O rosto, espelho vivo do meu ser,
A pele que transpira o bem-fazer,
Retrata, fielmente, o meu sentir,
Reflecte, tão-somente, esse viver

Que fora, toda a vida, o meu querer,
Ou seja, o Mundo Novo que há-de vir!...

  • Criança


Criança! Oh! Mas que som melodioso,
Que melodiosa musicalidade!
Que cântico sublime, esperançoso,
Embala a nossa alma a tenra idade!

Que belo era voltar a ser Criança,
Fazer feliz de novo minha mãe,
Eu dar-lhe, novamente, a terna esp’rança
De ser de novo o seu menino-Bem!...

Que belo era esse mundo imaginado,
Só brincar com Crianças, que alegria
Apenas ver Crianças a meu lado!...
-Que belo ser pureza, ingenuidade,

Só embalar o Sonho noite e dia!
Tão-só viver no mundo da Verdade

A Torre do Sonho
Para Ferreira de Castro este ramo de palavras orvalhadas pelo humanismo da sua obra

Aqui
na Torre do Sonho
a vida pendura sossegadamente
rosas vermelhas
nas orelhas da terra

Aqui
companheiros dos marinheiros do Outono
a vela do pensamento pode
abrir-se a todo o pano
Pois a palavra atraca tão facilmente
à ilha dos lábios do homem
como as caravelas da saudade
se banham livremente nas margens do rio Sena

Sim
companheiros das horas amargas e tristes aqui os navios da ideia
atracam livremente
ao cais do desejo

Aqui
sim
os poetas podem sentar-se
nos largos ombros da manhã
há milénios acesa
dentro dos olhos dos homens

Portanto vinde para aqui
ó poetas do mundo inteiro
que é deste muro indestilhaçável que sairá
o primeiro canto do hino
que um dia ecoará dentro do peito
da gigantesca montanha humana!

Poema da minha rua
Para o Poeta Carlos Faria

Para lá das ruas desertas
apenas mais ruas desertas

Para lá das casas vazias
apenas mais casas vazias

E para lá das muralhas do silêncio
apenas mais muralhas do silêncio

Só o eco do desejo vibra
dentro da boca dos caminhos!

(Poemas do Meu Tempo, 1967)


  • Notas Biográficas

"Filho de humildes lavradores, com apenas dois anos de idade veio para Faro onde fez a instrução primária, não prosseguindo nos estudos por dificuldades financeiras. Começou desde muito novo a escrever nos jornais e a mostrar-se um acérrimo adversário do regime salazarista, sendo por isso várias vezes detido pela PIDE em cujas prisões, do Aljube e de Caxias, cumpriu muitos meses, valendo-lhe, contudo, a glória de se haver relacionado com algumas das personalidades mais proeminentes do mundo das letras e da política portuguesa.(...)
José dos Santos Stockler, um homem simples e humilde, que fez da poesia e das colunas da imprensa uma tribuna de resistência contra a iniquidade, o autocracismo e a corrupção mental.Começou desde muito novo a escrever nos jornais e a mostrar-se um acérrimo adversário do regime salazarista, sendo por isso várias vezes detido pela PIDE em cujas prisões, do Aljube e de Caxias, cumpriu muitos meses, valendolhe, contudo, a glória de se haver relacionado com algumas das personalidades mais proeminentes do mundo das letras e da política portuguesa. (...)Relacionou-se politicamente com algumas figuras da resistência republicano, o pedagogo e emérito jornalista Carvalhão Duarte e o poeta Alfredo Guisado, emérito fundador do movimento do «Orfeu», que enquanto director-adjunto do jornal «República» lhe franqueou aquelas prestigiadas colunas à sua esclarecida colaboração.(...)
Santos Stockler criara fortes laços de amizade com imensos homens de letras, irmanados numa autêntica cruzada cultural contra o regime fascista, de entre os quais impõe-se destacar nomes notáveis, como os dos poetas José Régio, Jorge de Sena, José Gomes Ferreira, João José Cochofel, Egipto Gonçalves, Joaquim Namorado, Eugénio de Andrade, Mário Dionísio e Alexandre O’Neil; ou dos escritores Alves Redol, Adolfo Casais Monteiro, Ferreira de Castro, Fernando Namora, Carlos de Oliveira, Antunes da Silva e Manuel da Fonseca, sendo estes últimos os grandes expoentes da literatura de cenário alentejano, que Santos Stockler tanto admirava. A este valioso naipe de literatos nacionais devemos ainda acrescentar algumas figuras da literatura latino-americana, com quem igualmente estabeleceu fortes laços de amizade, nomeadamente com os poetas João Cabral de Melo Neto, Cecília Meireles, Rocha Filho, Manuel Bandeira, Pablo Neruda, ou com os escritores Jorge Amado, Dr. Pessoa de Morais (sociólogo brasileiro), Salvador Espriu, Félix Cucurrull, José Ledesma Criado, Juan Ruiz Pena, etc. Com alguns deles manteve acesa correspondência epistolar(...)De entre os algarvios, que se distinguiram nas letras pátrias, tinha especial predilecção por António Ramos Rosa e fraterna amizade pelo poeta e escritor António Vicente Campinas, que, tal como ele, fora um indefectível apoiante das ideias veiculadas pelo Partido Comunista Português. (...)
Dispersou a sua prestigiosa colaboração, como poeta e prosador, por vários órgãos de comunicação social, de entre os quais destacamos «O Diabo», «Diário de Notícias», «Diário de Lisboa», «Diário Popular», «República», «Jornal de Letras e Artes», nas revistas «Cultura» e «Voga», todos de Lisboa. Na província colaborou em «O Comércio do Porto», «Diário de Coimbra», «Notícias de Chaves», «Notícias de Guimarães», «Gazeta do Sul», «Gazeta do Montijo», «O Setubalense», «Foz do Guadiana», «Notícias do Algarve», «Jornal do Algarve» (todos Vila Real de Santo António), «Povo Algarvio» de Tavira, «Correio do Sul» e «O Algarve» ambos de Faro, «Barlavento», «Comércio de Portimão», «A Voz de Loulé», e muitos outros jornais de várias localidades, do Minho ao Alentejo(...)
Nos últimos anos de vida fundou e dirigiu, em 1-12-1984, o semanário farense «Terra Algarvia», que teve uma periodicidade difícil e algo irregular, mercê das dificuldades financeiras com que teve de se debater. Em todo o caso foi uma tribuna irreverente e combativa que se manteve sempre num plano bastante crítico em relação à partidocracia e ao clientelismo político que caracterizava, então, a nossa jovem democracia.
https://sapientia.ualg.pt/bitstream/10400.1/5081/1/Lembrando%20o%20poeta%20Santos%20Stockler.pdf (adaptado)

  • Bibliografia


A Viagem Adiada (poemas), 1963;
Poemas do Meu Tempo, 1967;
Diálogo com a Noite (poemas), 1968;
Jardins de Outono (poemas), 1971;
Poesia Mutilada (poemas), 1975;
Nas Caves da Memória (poemas), 1982;
Aquário do tempo (poemas), 1984.

- Artigo de Vilhena Mesquita sobre a vida e a obra de Santos Stockler.
- 2020 - Lançamento pela Câmara Municipal de Lagoa do Prémio Literário Santos Stockler 2020/2021
- 2020 - O Presidente do Município de Lagoa entregou no dia 17 de julho de 2020, o prémio à vencedora Helena Tapadinhas do 3º prémio literário Santos Stockler com o romance "Barro cru" e abriu oficialmente a edição 2020/21.
- 2016 - 1.º Prémio Literário Santos Stockler instituído pela Câmara Municipal de Lagoa, com o objetivo de promover, defender, incentivar a criação literária, o gosto pela leitura e pela escrita e valorizar a língua portuguesa, a identidade e diversidade cultural do Algarve, com referências ao concelho.
- 2018 -Notícia da jornalista Elisabete Rodrigues sobre Helena Tapadinhas e o seu «Alfaiate» vencem Prémio Literário Santos Stockler.
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