Oliveira, Ataíde
- Francisco Xavier de Ataíde Oliveira
Algoz, Silves, 2/10/1842 - Loulé, 22/11/1915.
Escritor. Historiador. Arqueólogo. Etnógrafo. Jornalista. Advogado. Conservador do Registo Predial. Padre. Figura maior da cultura algarvia. Foi aluno no Liceu de Faro / Escola Secundária de João de Deus.
- Textos e Poemas para Leitura
- OS SENTIDOS DO AMOR
Primeiro de certo é ver,
Sempre a esse o meu desejo;
Olho por um e outro lado,
Cá por mim nunca te vejo.
Já o segundo é ouvir
Eu por mim nãoo ouço nada,
Senão suspiros e ais
Que se m'apartam d'est'alma.
o terceiro é cheirar bem
Um raminho de alecrim;
Todas as paixões s'acabam
Só a minha não tem fim.
Quanto ao quarto esse é gostar,
Mas que gosto posso eu ter;
Ausente do bem que adoro
Mais me vale já morrer.
O quinto é apalpar,
Só em ti apalparei
Se fores firme e constante,
Só morto te deixarei.
Pág. 179 do Romanceiro e Cancioneiro do Algarve
Áudio por Isabel S., 12.º ano, AETC, 2026.
Vídeopoema por Luísa J., 12º D, AETC, 2026.
- UMA CANTIGA POPULAR
Em muitas casas, principalmente no campo, usam de calar as crianças, colocando-as sobre a perna direita, balouçando-a e cantando os seguintes versos:
Tinqlin-tim — Maria Pires
Tinqlin-tim — que fazeis vós cá
Tinqlin-tim — faço filhoses
Tinqlin-tim — não tenho sal
Tinqlin-tim — vai-o buscar
Tinqlin-tim — buscar aonde
Tinqlin-tim — casa do conde
Tinqlin-tim — que é desse conde
Tinqlin-tim — está no mato
Tinqlin-tim — que é desse mato
Tinqlin-tim — queimou o fogo
Tinqlin-tim — que é desse fogo
Tinqlin-tim — apagou água
Tinqlin-tim — que é dessa água
Tinqlin-tim — beberem bois
Tinqlin-tim — que é desses bois
Tinqlin-tim — debulharam trigo
Tinqlin-tim — que é desse trigo
Tinqlin-tim — comeram pôlas
Tinqlin-tim — que é dessas pôlas
Tinqlin-tim — s'tão pond'os ovos
Tinqlin-tim — que é desses ovos
Tinqlin-tim — comeram frades
Tinqlin-tim — que é desses frades
Tinqlin-tim — dizem a missa
Tinqlin-tim — que é dessa missa
Tinqlin-tim — está já dita.
Pág. 221, Contos
Áudio por Giovanna G, 12.º ano, AETC, 2026.
- A MOURA DE FARO
Faro é hoje a capital do Algarve. No tempo em que os sarracenos dominavam nesta província, era Faro de pouca importância, comparada com Silves ou
Tavira.
D. Afonso III tomou o castelo de Faro em 23 de Fevereiro de 1249.
[..] Diz a lenda:
Parte das forças que atacaram o castelo de Faro fôra colocada no largo atualmente chamado de S. Francisco, e estas forças eram comandadas por um brioso oficial, robusto e formoso rapaz, solteiro. Este oficial pôde ver em certa ocasião a formosa e gentil filha do governador mouro e dela ficou enamorado.
A presença agradável e o aspecto belicoso do nosso oficial não passaram despercebidos à moura, e esta, em breve tempo, estava em relações amorosas com o valente oficial, por intermédio de um seu escravo, também mouro, e que conhecia perfeitamente as línguas portuguesa e sarracena.
Em certo dia conseguiu o oficial que a sua namorada o recebesse em curto rendez-vous dentro do castelo, combinando-se que o mouro intermediário lhe abrisse, alta noite, a porta, hoje da Senhora do Repouso. Antes da noite dirigiu-se o oficial a algum dos seus camaradas e disse-lhes: ...
Pode ver o texto completo e ouvir esta lenda no separador "A Lenda de Faro - Lenda", do menu "Autores Algarvios", no site da Matilde V., 12.º E, 2026.
- Biografia:
Ataíde de Oliveira foi uma das mais destacadas figuras algarvias do final do século XIX e do início do século XX. Historiador, etnógrafo, jornalista, advogado e escritor, é considerado uma das personalidades mais relevantes da cultura algarvia.
Frequentou o Liceu de Faro e o Seminário de São José, em Faro, prosseguindo depois os seus estudos na Universidade de Coimbra, onde concluiu as licenciaturas em Teologia e em Direito. Foi ordenado sacerdote católico, embora não tenha desenvolvido uma carreira pastoral prolongada, dedicando-se sobretudo às atividades intelectuais e profissionais.
Fundou e dirigiu o jornal O Algarvio e colaborou em diversos periódicos, afirmando-se igualmente como um prolífico investigador e divulgador da história, da arqueologia, da etnografia e das tradições populares do Algarve. Licenciado em Direito, exerceu advocacia em Loulé e desempenhou, durante cerca de trinta anos, o cargo de Conservador do Registo Predial da comarca, que constituiu a sua principal atividade profissional remunerada.
Ataíde de Oliveira deixou uma vasta obra dedicada ao Algarve, onde se destacam estudos históricos, monografias de diversas localidades, recolhas de contos, lendas, romances e canções tradicionais, contribuindo decisivamente para a preservação da memória e do património cultural da região. A sua produção continua a constituir uma referência incontornável para o conhecimento da história e da identidade algarvias.
- Bibliografia:
- Biografia de D. Francisco Gomes do Avelar : Arcebispo-Bispo do Algarve, 409 p., Porto : Typographia Universal, 1902.
- Contos infantis, 235 p., Faro : Tipografia do Algarve e do Alentejo, 1897.
- Contos tradicionaes do Algarve, 526 p., Porto : Tipografia Universal, 1905 [2 volumes em edições posteriores].
- Memórias para a história eclesiástica do Bispado do Algarve, 315 p. Porto : Tipographia Universal, 1908.
- Monografia do Algoz, 258 p., Faro : Algarve em Foco, 1987. Reprodução facsimilada de: Lisboa: Imprensa Lucas, 1905.
- A monografia de Alvor, 272 p., Porto : Livraria Figueirinhas, 1907.
- Monografia de Estoi : a vetusta Ossonoba, 199 p. Porto : Companhia Portuguesa Editora, 1914.
- Monografia de Estombar : concelho de Lagoa, 255 [VII + 27] p., Faro : Algarve em Foco, 1987. Ed. fac-simile de: Porto : Typographia Universal, 1911.
- Monografia do concelho de Loulé, 358 p., Porto : Typographia Universal, 1905.
- Monografia da Luz de Tavira, 235 p., Porto : Empresa Gráfica A Universal, 1913.
- Monografia do concelho de Olhão da Restauração, 365 p., Porto : Typographia Universal, 1906.
- Monografia de Paderna ou Paderne do concelho de Albufeira, 249 p., Porto : Livraria Portuense, 1910.
- Monografia de Porches : concelho de Lagoa, 191 [IX + 22] p., Faro : Algarve em Foco, 1987. Ed. fac-simile de: Porto : Tipografia Universal, 1912.
- Monografia de São Bartolomeu de Messines, 266 p. Faro : Algarve em Foco, 1987., Ed. fac-simile de: Porto : Livraria Lopes & C.ª, 1909.
- Monografia do concelho de Vila Real de Santo António, 297 [18] p., Faro : Algave em Foco, 3.ª ed, 1999.
- As mouras encantadas e os encantamentos no Algarve, 302 p., Lisboa : Arquimedes Livros, 2010. Ed. fac-simile de: Tavira: Typographia Burocrática, 1898.
- Romanceiro e cancioneiro do Algarve : contos tradiccionais do Algarve, 432 p., Porto : Typographia Universal, 1905.
Listamos aqui o seguinte livro para chamar a atenção de que não é de Ataíde, embora algumas bibliotecas o possam indicar como tal. É de Francisco Xavier de Oliveira, também conhecido como Cavaleiro de Oliveira.
- Viagem à Ilha do Amor, 139 [4] p., Porto : Caixotim, 2001. Ed. facsimilada de: Haia, 1744.
A talho de foice, fica também aqui a referência ao livro de João Baptista da Silva Lopes, que, embora tenha o mesmo título do quarto livro desta lista, é outro livro, com outras memórias, de outro autor. Ataíde colocou um subtítulo no seu livro: Continuação
- Memórias para a história ecclesiastica do Bispado do Algarve, 654 p.; Lisboa : Tipografia da Academia Real das Sciencias de Lisboa, 1848.
A lista acima foi feita a partir dos catálogos online da BMF e da UAlg..
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(Aqui pode encontrar as imagens das capas acima.)
- Livros disponíveis para download:
Pode descarregar gratuitamente versões em PDF de 12 obras da lista acima, que se encontram em domínio público, ou seja, já não estão protegidas por direitos de autor.
Disponibilizamos as seguintes obras de Ataíde Oliveira: Contos Tradicionais (1.º volume), As Mouras Encantadas, Romanceiro e Cancioneiro do Algarve e as monografias de Algoz, Alvor, Loulé, Olhão, Porches, Messines e Vila Real de Santo António.
Estão também disponíveis para download Viagem à Ilha do Amor, de Francisco Xavier de Oliveira, e Memórias para a História Eclesiástica do Bispado do Algarve, de João Baptista da Silva Lopes.
Clique aqui ou numa das capas abaixo para aceder à pasta do Google Drive da wikialgarve.pt, onde encontrará todos os livros disponíveis para consulta e download.

- Publicações sobre (ou com referências a) Ataíde Oliveira disponíveis — na sua maioria — online na plataforma Sapientia:
- 1995 - Acerca do romanceiro e cancioneiro do Algarve de Ataíde Oliveira, artigo científico de Vanda Anastácio. (A ligação para o download, na Sapientia, está a remeter para um artigo de outro autor.)
- 2000 - O imaginário popular na obra de Ataíde Oliveira, capítulo de José Carlos Vilhena Mesquita, no livro O Algarve encantado na obra de Carlos Porfírio. Este livro "resulta da simbiose entre a recolha oral feita por Ataíde de Oliveira no final do séc. XIX e as 9 pinturas realizadas por Carlos Porfírio, em meados do século XX". DOWNLOAD.
- 2001 - Portuguese jocular and novellistic tales in Francisco Xavier de Ataíde Oliveira's collection of folktales from Algarve, artigo científico de Lise Lynaes. DOWNLOAD
- 2003 - O imaginário fantástico nos contos tradicionais do Algarve recolhidos por Ataíde Oliveira, artigo de Margarida Tengarrinha na revista Al-Úlyá, n.º 9, pág. 111–118, Loulé, 2003. Fica também aqui a indicação de outro artigo da mesma autora: O imaginário fantástico nos "Contos tradicionais do Algarve", publicado no livro 6.º Congresso do Algarve : Racal Clube, 1990, pág. 111-116.
- 2006 - O monografismo algarvio - O pioneirismo de Ataíde Oliveira, artigo científico de José Carlos Vilhena Mesquita. DOWNLOAD
- 2012 - Contributo para o estudo da literatura oral no Algarve, Mestrado de Elisabete Andrade Reis. DOWNLOAD. Página para descarregar anexos.
- Veja mais sobre Ataíde Oliveira nos seguintes links:
- Publicação de 2015 da Rede de Arquivos do Algarve onde se pode ler que: os seus pais "mandaram os seus dois filhos, Francisco e João, frequentar os estudos preparatórios no Liceu de Faro" e que "Francisco Xavier mostrou vocação para a vida eclesiástica tendo-se matriculado a 28 de setembro de 1861, ainda com 17 anos, no Seminário de S. José de Faro" e também que concluiu, na Universidade de Coimbra, duas licenciaturas: "'Direito, que concluiu a 11 de junho de 1874, e Teologia, que terminou a 8 de junho de 1875".
- Artigo "Ataíde de Oliveira (1842/3? – 1915) – qual o verdadeiro ano de nascimento?", no blog-wordpress O Acordado.