O dia em que nasci morra e pereça - Soneto - Luís de Camões
O dia em que nasci moura e pereça
O dia em que nasci moura e pereça,
Não o queira jamais o tempo dar;
Não torne mais ao Mundo, e, se tornar,
Eclipse nesse passo o Sol padeça.
A luz lhe falte, O Sol se [lhe] escureça,
Mostre o Mundo sinais de se acabar,
Nasçam-lhe monstros, sangue chova o ar,
A mãe ao próprio filho não conheça.
As pessoas pasmadas, de ignorantes,
As lágrimas no rosto, a cor perdida,
Cuidem que o mundo já se destruiu.
Ó gente temerosa, não te espantes,
Que este dia deitou ao Mundo a vida
Mais desgraçada que jamais se viu!
Neste poema, o eu lírico expressa um desejo de que o dia de seu nascimento nunca se repita, e, se isso ocorrer, que o mundo sofra grandes desastres. Ele imagina um cenário apocalíptico, onde o Sol se escurece, monstros surgem, e o mundo parece estar à beira da destruição. Ele declara que esse dia foi o mais desgraçado de todos, marcado por sua própria existência, e pede que, se o tempo o trouxer de volta, o mundo enfrente sinais de calamidade e desordem. O tom é de desesperança, refletindo a dor profunda e o sofrimento do poeta.
- Para saber mais:
Um soneto e um eclipse solar indicam a data de nascimento de Camões
E se o início de um soneto de Luís de Camões permitisse indicar a sua data de nascimento? Foi esta a questão que se pôs e que permitiu a um grupo de investigadores da Universidade de Coimbra (UC) avançar com a hipótese de o poeta português ter nascido a 23 de Janeiro de 1524, há 500 anos. A pista? Um eclipse solar.
Carlota Simões, diretora da IUC e professora da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, explica ao PÚBLICO que, segundo o próprio, o dia em que Camões nasceu não deveria voltar mais ao mundo. Porém, caso voltasse, o Sol deveria sofrer um eclipse. Significa isto que tal aconteceria um ano depois, quando o dia do nascimento do poeta voltasse ao mundo e ele completasse um ano de idade.
A partir daqui, os investigadores procuraram todos os eclipses visíveis em Portugal em 1524 e 1525 para datar o primeiro aniversário de Camões. Após consultar dados da agência espacial norte-americana NASA, a equipa apenas encontrou um eclipse solar nesse período a 23 de Janeiro de 1525.
Um soneto e um eclipse solar indicam a data de nascimento de Camões
Afinal, se alguma investigação baseada no estudo da astronomia – área que Camões dominava – já possibilitou reinterpretações de trechos de Os Lusíadas, é muito provável que o quarto verso daquele poema seja uma alusão a certo eclipse solar visível em Portugal, em 1525”, destaca uma publicação no site da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra.
In:
https://www.publico.pt/2024/01/12/ciencia/noticia/soneto-eclipse-solar-indicam-data-nascimento-camoes-2076646
- O mesmo soneto em língua espanhola
El día que nací muera y perezca
El día que nací muera y perezca,
No lo quiera jamás el tiempo dar,
No torne más al mundo, y, de tornar,
Eclipse en ese acto el Sol padezca.
Que la luz le falte, el Sol se le oscurezca,
Muestre el mundo señales de acabarse,
Monstruos, sangre lluvia o aire, názcanle,
Que la madre al propio hijo no conozca.
Las personas pasmadas, de ignorantes,
Las lágrimas en el rostro, la coloración ida,
Reparen que el mundo ya se destruyó.
Que este día echó al mundo la vida
¡Oh gente temerosa, no te espantes,
Más desgraciada que jamás se vio!
- O mesmo soneto em italiano
Il dì in cui nacqui che muoia e perisca
Il dì in cui nacqui che muoia e perisca,
Il tempo non lo voglia più ridare,
Al Mondo più non torni, o al suo tornare
D'un eclissi a quel passo il sol ferisca.
Perda la luce, il cielo se scurisca,
Dia al Mondo i segni del suo terminare,
Nascan mostri e piova sangue dall'aere,
La madre il figlio più non riconosca.
E le persone, attonite ed ignare,
Lacrime in volto e aspetto impallidito,
Pensino il Mondo giunto a fine trista
Gente impaurita, non trasecolare:
Questo giorno la vita ha partorito
Più disgraziata che si sia mai vista!
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