Macheira, António

From Wikipédia de Autores Algarvios
Revision as of 12:34, 27 November 2020 by Admin (talk | contribs)

Jump to: navigation, search

Antoniomacheira.jpg Antoniomacheira-capa-livro.jpg

  • António Henrique da Cruz Macheira

Olhão, 05/08/1933 - Olhão, 14/12/1957.
Escritor talentoso que 'desapareceu' muito novo.
Tem apenas um único livro publicado -postumamente- do qual destacamos o conto "O Berlinde do Janoca".
Patrono da Biblioteca Escolar do Agrupamento de Escolas João da Rosa, em Olhão.


  • O Berlinde do Janica, conto de António Macheira

As crianças estavam tristes e carrancudas, os berlindes no fundo das algibeiras, as bocas cerradas e firmes. Um sol de inverno fingia afagá-las, convidava-as a saltar, a brincar. Mas ninguém sentia desejos de correr pelo largo grande que se estendia a seus pés: sentados junto do muro alto que lhes servia de abrigo e de encosto, os miúdos nem sequer fumavam as beatas apanhadas nos dias anteriores pelas ruas e cafés, durante as suas deambulações sem finalidade aparente.
Eram seis, mas, na semana passada, eram sete. O Janica morrera e enterrara-se ao princípio da tarde. Poucos dias estivera doente em casa, fora-se deste mundo quase de repente. Pneumonia dupla, dissera o médico. Como lhes era habitual, assim que saíram do cemitério, os companheiros do Janica dirigiram-se para o sítio preferido, o largo da Feira, enorme e cheio de sol. Afinal verificaram, angustiados, que não podiam brincar naquele dia nem talvez nos outros: o Janica morrera.
O Álvaro tirou um berlinde colorido da algibeira. Os mocinhos olharam tristemente para aquilo.
- Era do meu irmão… Lembram-se? Deu-me antes de morrer.
Todos sentiram um nó na garganta. Mas Álvaro continuava fitando a pequena esfera de vidro.
Não sou capaz de brincar com ele. Nã sou. E os seus olhos encheram-se de lágrimas. Os amigos rodearam-no.
-Deixa lá, Álvaro – disse o Talica – eu tenho uma ideia. Vamos enterrar o berlinde do Janica.
Acharam o alvitre bom. Próximo dali o terreno era quase arenoso, podiam fazer uma cova sem grande dificuldade. O Toino encontrou um pau pequeno e ponteagudo, começou logo a cavar rapidamente. Um a um todos o ajudaram e abriram uma cavidade estreita e funda. Em seguida Toino colocou um papel de jornal na abertura e empurrou-o até encontrar chão firme. O Álvaro, de mão a tremer, mostrou o berlinde uma vez mais aos companheiros, beijou-o levemente, e empurrou-o com todos os cuidados para dentro do buraco. Todos ouviram, então, o suave baque da queda do objecto sobre o papel . Mas sucedeu uma coisa imprevista e maravilhosa: como se uma força desconhecida os obrigasse a isso, o grupo inteiro tirou os seus berlindes dos bolsos esfarrapados e jogou-os para dentro da cova. Tudo isto num silêncio impressionante, apenas cortado pelo tilintar alegre que veio das entradas da terra.
Taparam meticulosamente o buraco, calcando bem a terra sob os calcanhares descalços. À superfície não deixaram qualquer aviso. Pelo contrário, durante algum tempo estiveram a destruir todos os indícios de uma escavação recente. Quando sentiram dúvidas acerca do verdadeiro local é que se retiraram novamente para o muro alto e branco e ali se conservaram em silencio até ao fim da tarde.


  • Até amanhã, meu filho, conto de António Madureira

A chavinha emperrou um pouco, mas o estalido, já tão conhecido, da lingueta a correr, fez-se ouvir. Conceição suspirou, satisfeita, enquanto a pequena porta de ferro forjado se abria lentamente. O vidro estava baço e as duas pequenas cortinas brancas pareciam húmidas e manchadas. A pequena lamparina apagara-se e um cheiro a azeite queimado veio-lhe às narinas juntamente com o odor subtil de duas rosas amarelas que murchavam na jarrinha de porcelana. A moldura de madeira polida também sofrera os efeitos da humidade eo rosto querido esfumava-se sob uma neblina cerrada. Conceição puxou por uma ponta do xaile e limpou tudo cuidadosamente até que o rosto voltou a sorrir, um sorriso eterno, feliz. Sofregamente, beijou o retrato. Mas lembrou-se de qualquer coisa e lamentou-se em voz baixa.
– Ai, esta minha cabeça, Luís. Não faças caso. Boa tarde, meu filho. – Novamente limpou a moldura.
– Sabes? Ontem não pude vir por causa da chuva. Eu bem me importava, mas o teu pai...Ora! Estas molduras, Nossa Senhora! Custou-me quinze escudos, na feira do ano passado...Nunca dou com o jeito. Ah! Já está. Se me constipei da outra vez, tusso outra vez, e não saí disto (tu bem o conheces) e eu acabo por ficar em casa. A tal dor não há meio de passar. Vem daqui, mete-se pelas costas...Que disparate, Luís! Vá lá que ninguém olhou para mim. Depois, a noite sem dormir, um vendaval dos demónios; o teu pai a roncar e a acordar-me: ˝Isto é chuva, Conceição?˝ ˝– É sim, João; uma chuva igualzinha à da tal noite...˝. Agora estou estafada. O teu pai ficou em casa a dormir. Quem diria que hoje estaria um dia assim. Tal e qual como na outra vez...
Agarrou no pequeno frasco que estava a um canto, desarrolhou-o lentamente e, inclinando-o sobre o recipiente da lamparina, deixou correr o azeite que restava. Um novo pavio foi colocado e acendido. Conceição fez um pequeno sinal da cruz com o fósforo antes de o apagar. Os seus lábios continuavam num vaivém incessante, que poderia parecer uma oração. Mas não era.
– Tu não estás molhado, pois não? Aqui as cortinas estão encharcadas. O teu vizinho de cima é que deve apanhar mais humidade. Oxalá que se dêem bem. A Maria ainda fala deste luxo, a parva. Se calhar o meu filho haveria de ir pró chão e ser espezinhado! Somos pobres mas graças a Deus, o teu pai arranjou aquele negociozinho de peixe... –fez outro sinal da cruz com o fósforo apagando e jogou-o fora. Sorriu inconscientemente.
– Que linda tarde, Luís. E isto hoje está muito animado, graças a Deus. Olha, a mãe do Rafael chegou agora e trouxe-lhe um ramo de malmequeres. Não o tens visto, Luís? Vocês eram tão amigos... –suspirou– às vezes penso como a vida deve ser aborrecida para vocês aí em cima.
Duas velhotas magras, vestidas de negro, aproximaram-se de Conceição.
– Nosso Senhor te salve Çanita.
– Boa tarde, tia Adélia. E à sua mana também.
O olhar perscrutador da velha Adélia fixou-se no retrato grande.
– Que belo moço, o seu santinho! Todas as vezes que passamos por aqui, digo à Luísa: ˝Veja lá, mana, aquele rapaz que morreu afogado. É mesmo igual ao da imagem de S. Sebastião, que temos em casa... ˝
Finalmente, as duas velhas afastaram-se e Conceição bateu com uma mão na testa.
– O jantar! – e duas lágrimas correram-lhe pelo rosto envelhecido.
– Daqui a pouco é noite. Arroz com ervilhas, lembras-te? O teu prato preferido. Agora já não o faço no tacho azul, mas, sim, no pequeno.
As lágrimas corriam-lhe. – Sou uma parva, Luís. A chorar por uma coisa destas.
Enxugou os olhos com o lenço branco. Parecia mais aliviada. Meteu o pequeno frasco numa algibeira da saia. E, empurrando brandamente a portinha de ferro, que gemeu de mansinho. Conceição disse, em voz baixa:
– Até amanhã meu filho.


  • Biografia.
Filho de José Rodrigues Macheira (natural de Querença, Loulé, gerente conserveiro) e Maria João Pinheiro da Cruz Macheira (natural de Olhão, pianista por devoção), António Macheira, ainda muito jovem (aos 12 anos de idade), teve um grave acidente que viria a modificar a sua vida. Nos 10 anos que se seguiram, fez uma vida normal embora se soubesse que o seu futuro não era nada promissor, sobretudo quando comparado com o dos seus amigos. No convívio com colegas e companheiros procurava sempre maneira de estar à altura deles, acompanhando-os nas brincadeiras, namoricos e tantas outras coisas próprias da juventude. Em casa, isolado e pensativo, lia ou deliciava-se com programas de rádio, apreciava música clássica, escrevia ou lia avidamente, como se se sentisse iluminado por uma força interior. Era um conversador exímio, autodidacta, que se dedicou de alma e coração à literatura e às humanidades, lendo e aprendendo, entusiasticamente, com Camões, Pessoa, Garrett, Tolstoi, Zola, Balzac e outros vultos famosos de escritores e poetas. A sua imaginação criativa e o amor à vida contribuíram para adquirir conhecimentos que de outro modo não era possível alcançar. Talentoso rodeado dos maiores mestres da literatura universal, que muito contribuíram para que este jovem fosse reconhecido como uma perda prometedora no mundo das letras. A azáfama marítima, as indústrias, a vida dos pescadores e as belezas das terras algarvias são narradas intensamente. A sua terra, Olhão, é descrita, principalmente, de maneira “invejável e soberba”. Os temas do seu livro continuam atuais e é bom saber que alguém corajosamente os trouxe, mais uma vez, para o centro da vida real, como um aviso à desigualdade chocante de certos valores da sociedade.
Wikipedia


  • Bibliografia.

Até amanhã, meu filho - Contos e Narrativas, Algarve em Foco Editora.

No site leiturasecia diz-se que "Ficaram ainda por publicar textos narrativos, líricos e dramáticos que oportunamente serão editados".

  • Excerto do prefácio à 1ª edição do livro de António Madureira por Joaquim Magalhães:
«...sem grande esforço e sem exagero se pode verificar que o moço autor destas páginas breves tinha o dom difícil, mas evidente, de saber contar uma história. E esse dom precioso é que, antes de tudo o mais, faz um contista ou um autor de ficção.
Ora, na verdade, as histórias deste pequeno volume são histórias bem contadas. Embora curtas como promessas, são já mais do que simples esboços. A extensão reduzida, ou condensada, resulta tão somente de terem sido escritas para publicação em jornais. No entanto, é evidente que, apesar desse curto desenvolvimento, revelam as qualidades essenciais do ficcionista: a capacidade de efabulação de um enredo, a imaginação criadora que dá verosimilhança à acção, o jeito para o diálogo ou para o monólogo reveladores.(...)
Sente-se latejar a vida do ambiente da terra natal do contista em todas ou quase todas as histórias do volume. A observação chegou ao moço artista para dar às suas criações o cunho de autenticidade que no-las faz aceitar como verosímeis no meio em que elas se desenrolam.
E será ainda, por isso mesmo, que mais nos impressionam, pelo luar de poesia que as toca, as narrativas de A. M. em que nos aparecem crianças.
É evidente a ternura contida com que nos fala dos meninos pobres e dos pobres e humildes seres vivos que a desgraça amarfanha e limita.
Creio que "O Berlinde do Janica", porventura o melhor conto do livro, se nos afigura mais impressionante exactamente por revelar essa ternura pela infância e pela vida dos humildes de que o autor dá provas evidentes. Por isso também, me parecem de destacar os contos: "As Laranjas eram Azedas" e "A Criança e a Moeda".»


  • Veja mais sobre António Macheira nos seguintes links:

- Na Wikipédia.

-2014- Página de uma revista universitária polaca que traduziu e estuda a sua obra.

- "O Berlinde do Janica" é o título de um emblemático conto e é o nome do blogue da Biblioteca Escolar António Macheira, do Agrupamento de Escolas João da Rosa, em Olhão.

- [https://sites.google.com/site/leiturasecia/ant%C3%B3niomacheira Biografia de António Macheira num site ligado ao blogue Leituras e Companhia.

- Homenagem na Biblioteca Municipal de Olhão.

- Página da APOS sobre Diamantino Piloto com a informação de que os dois fundaram o jornal "Sporting Olhanense".

  • in Logo-arquivo-pt.png:

-2003- Conto O Berlinde do Janica - "As crianças estavam tristes e carrancudas, os berlindes no fundo das algibeiras, as bocas cerradas e firmes. Um sol de inverno fingia afagá-las, convidava-as a saltar, a brincar. Mas ninguém sentia desejos de correr pelo largo grande que..."