Silva, Maria Gabriela Sousa e - O Olhar, a escuta e o Sentir em Emiliano da Costa
Maria Gabriela Sousa e Silva nasceu e cresceu em Faro.
Aos dezasseis anos, terminado o curso liceal, matricula-se na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa onde conclui a Licenciatura em Filologia
Românica e o Curso de Ciências Pedagógicas.
É mestre em Literaturas Comparadas Portuguesa e Francesa, sec. XIX e xX, pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.
Toda a sua vida tem sido dedicada ao ensino e à investigação.
A linguística e a literatura, em particular a poesia, têm preenchido grande parte da sua pesquisa. As tradições e costumes algarvios e a temática feminina ocupam outros dos seus campos de trabalho.
Tem publicado ensaios e artigos em revistas e jornais literários, jornais regionais e outros.
Prefácio de Joaquim Magalhães para o livro O Olhar, a escuta e o Sentir em Emiliano da Costa de Maria Gabriela Sousa e Silva, com o título: Parabéns, algarvios
Quando o pintor Carlos Porfírio fez o retrato de Emiliano da Costa (que me parece ser o que melhor o fixou), lembro-me de ele ter dito:
⁃ Apanhei-o por dentro.
E queria com isto dizer que, ao pintá-lo na postura que na tela se vê, com a cabeça bem levantada, a imagem do convivente Emiliano, tímido, acanhado, receoso e sorridente, com que nos aparecia habitualmente, não era, só por si, a única do poeta. aparente social, tinha por detrás, lá no fundo, essa outra realidade. a do autor, cônscio de si, confiante e afirmativo. Como realmente era e como a autora deste estudo sobre " o olhar, a escrita e o sentir", em Emiliano da Costa, apanhou, bem por dentro da obra.
○ poeta consciente do que valia e do que era capaz de fazer, pintou-o por dentro Carlos Porfirio.
Pois é assim, pegando na deixa do pintor, que afirmo aqui também: a autora desta tese de mestrado sobre a obra de Emiliano, apanhou-o por dentro.
Descobriu-lhe "o olhar, a escrita e o sentir" e guiou-nos, com segurança total e pormenorizadamente, pela bibliografia do poeta, pelo ambiente em que
viveu este Algarve único, que tem justamente em Emiliano um dos seus melhores e mais fidedignos pintores, ia a dizer retratistas.
Faz-nos a autora percorrer a obra como se fosse uma casa com várias portas, com salas e compartimentos, em cada uma das quais nos mostra o que é
característico e significativo.
Cada sala tem a sua porta de entrada.
É a primeira a da pintura, da cor da luz e do movimento, para recolher e perceber a lição dos pintores e a sua relação com a poesia.
Por outra porta leva-nos até á música, à melodia da natureza e da cor e ao diálogo com os compositores.
Pela terceira porta vamos entrar no ambiente do imaginário popular.
Para tudo isto é preciso um domínio perfeito da linguagem: 'Linguagem é pintura". Aqui faz a autora o estudo dos termos técnicos e científicos que o poeta usa com perfeita propriedade Não nos admiremos de encontrar neologismos onomatopeias, sinestesias nos poemas de Emiliano. Não nos espante "topar" com as palavras dos falares algarvios.
O poeta tanto se sente à vontade na sua região, como no universo vasto de que a sua terrinha é um elemento.
Os próprios títulos da produção de Emiliano dão as chaves do estudo que esta atentíssima mestra domina com comprovada mestria, enquanto aproveita para
ir entrando nos compartimentos da variada obra do poeta. Ai, faz-nos reparar por exemplo em outros poetas da nossa literatura como: João de Deus, Bernardo de Passos, Cândido Guerreiro, João Lúcio, António Aleixo e Júlio Dantas.
A mensagem de Emiliano não é só singularmente algarvia, mas ultrapassa as fronteiras do regional, para o nacional e o universal e embora vivendo fatalmente num tempo determinado, poeta como que se coloca fora ou acima, numa espécie de intemporalidade.
Proporciona-nos a autora desta tese uma visão interpretativa do poeta e documenta-a com os retoques e as indicações dos testemunhos escritos que pessoas amigas e não só, traçaram ou traçam, em palavras de que dá completa indicação.
Assim, amorosamente, tratando todo um vasto material, a autora dá-nos um retrato da obra de Emiliano que me parece tão bem conseguido, como conseguido
é o retrato físico que Porfírio pintou. Se o pintor apanhou por dentro o autor da obra, a autora deste belíssimo estudo apanhou por dentro a obra literária de Emiliano da Costa.
Homem de sorte, por duas vezes, o autor de Rosairinha.
Obrigado, Maria Gabriela.
Parabéns, algarvios.
Faro, 4 de Maio de 1997
Joaquim Magalhães