Magalhães, Joaquim - Mais uma fala acerca de João de Deus
Título: Mais uma fala acerca de João de Deus
Autor: Joaquim Peixoto Magalhães
Natureza / Tipo: Conferência / separata — alocução pronunciada por ocasião da inauguração de uma exposição comemorativa (bodas de diamante da Biblioteca Municipal de Faro) sobre João de Deus, e publicada nos “Anais do Município de Faro”, volume VIII, 1979.
Local / Editora / Data de publicação: Faro; Ano: 1979; foi publicada como separata dos “Anais do Município de Faro, n.º VIII”.
Contexto: A conferência visava homenagear João de Deus e foi proferida na inauguração da Exposição Comemorativa das Bodas de Diamante da Biblioteca Municipal de Faro.
- Conferência na inauguração da Exposição Comemorativa das Bodas de Diamante da Biblioteca Municipal de Faro, 7 de maio de 1977, publicada no VIII volume dos "Anais do Município", 1979
Mais uma fala acerca de JOÃO DE DEUS
<Senhor Governador Civil
Senhor Presidente da Câmara Municipal
Minhas senhoras, meus senhores
Sempre que se fala ou escreve de João de Deus, a imagem, que imediatamente ocorre e vemos, no écran ou pantalha interior da nossa Cinemateca intelectual, é a do Poeta. O Poeta do Amor, o autor do <Campo de Flores, que começaram por ser <Flores do Campo>. O Poeta inspirou a outro, Afonso Lopes Vieira, essa obra-prima de antologia que é <0 Livro de Amor de João de Deus, título, como todos sabem, do florilégio lírico extraído do <Campo de Flores>), no alambique requintado da sensibilidade do antologiador. Mas, se continuamos a evocar João de Deus, logo os transistores da nossa mecânica cerebral põem em atividade o computador da nossa memoria de pessoas cultas e ocorre-nos a imagem, e a pessoa, e a ação do autor da <Cartilha Maternal, essa Arte de Leitura> que deu brado, e foi notícia, e foi polémica, nos anos 70 e tal, oitenta, do século passado, isto é, há precisamente cem anos.
Convenhamos em que, apesar de tudo, estas duas sequências da nossa evocação, não nos chegam para entender o facto de ter sido e ser João de Deus o mais consagrado dos poetas ou escritores portugueses pelos seus próprios contemporâneos. Com efeito, nenhum outro logrou a coroa de louros, em vida, que foi atribuída a João de Deus. Podemos percorrer a galeria, longa e variada, do nosso passado cultural, e não encontramos nenhum escritor, poeta ou prosador, que tivesse tido, em vida, a consagração que João de Deus mereceu. Lembremos alguns: Gil Vicente, Camões, P. António Vieira, Bocage, Garrett, Herculano, Fernando Pessoa, Aquilino... Só Antero e Junqueiro tiveram também o seu momento de popularidade.
Mas nada que se assemelhe ao que se passou com João de Deus. Por quê? Sim, por quê? Por quê, por exemplo, haver um liceu, que foi, deixou de ser, voltou a ser de João de Deus? Por quê uma escola técnica teve, e creio que ainda tem, como patrono, João de Deus? E há um externato de João de Deus; e houve um colégio, no Porto, que era de João de Deus. E há a Associação de Cegos João de Deus. E há os jardins-escolas João de Deus. E há, por todas as cidades, e muitas vilas, deste pais, as ruas de João de Deus - mesmo que, em algumas, como nesta nossa em que vivemos, faltem a respetiva tabuleta e a indicação do nome. Há vilas e aldeias com o nome de João de Deus em pequenas ou grandes ruas. Aqui em Faro temos uma alameda que é, como lá está escrito numa das entradas, "Campo de Flores" com o nome do Poeta.
Conferência na inauguração das Bodas de Diamante da Biblioteca Municipal de Faro
In: "Separata do nº VIII dos "Anais do Município" Vários. P. 1-11
