Macheira, António - Até Amanhã, Meu Filho - Contos e Narrativas - Prefácio de JM
- António Henrique da Cruz Macheira
Olhão, 05/08/1933 - Olhão, 14/12/1957.
Escritor talentoso que 'desapareceu' muito novo, pelo que tem apenas um único livro publicado -postumamente- do qual destacamos o conto "O Berlinde do Janica". Patrono da Biblioteca Escolar do Agrupamento de Escolas João da Rosa, em Olhão.
Joaquim Magalhães diz de António Macheira:
- "(...) sem grande esforço e sem exagero se pode verificar que o moço autor destas páginas breves tinha o dom difícil, mas evidente, de saber contar uma história. E esse dom precioso é que, antes de tudo o mais, faz um contista ou um autor de ficção.
- Há nesses contarelos de crianças, aquelas saudades da infância, que estão na base de todo o sentido poético da vida, e que são, em todos nós, sempre profundos e sinceros."
Joaquim Magalhães, no prefácio que se segue, reconhece em António Macheira um talento precoce para contar histórias. Nos seus contos curtos, escritos ainda em juventude, sobressaem a ternura pela infância, a atenção aos humildes e a autenticidade do Algarve vivido. Sendo uma obra breve, prometia muito que a vida não deixou cumprir.
- Prefácio de Joaquim Magalhães no livro "Até Amanhã, Meu Filho - Contos e Narrativas":
- Excerto 1
Não me é fácil escrever acerca das narrativas deste volumezinho sem me lembrar que o autor desapareceu do mundo dos vivos numa idade em que qualquer escritor está ainda na fase de aprendizagem.
Assim, por uma espécie de simpatia irresistível, sinto-me levado a ver, em cada página destas histórias, não apenas o que lá está, como facto irrecusável, mas aquilo também que essas incontestáveis promessas fazem adivinhar de possibilidades irrealizadas. Todavia, sem grande esforço e sem exagero se pode verificar que o moço autor destas páginas breves tinha o dom difícil, mas evidente, de saber contar uma história. E esse dom precioso é que, antes de tudo o mais, faz um contista ou um autor de ficção.
Ora, na verdade, as histórias deste pequeno volume são histórias bem contadas. Embora curtas como promessas, são já mais do que simples esboços. A extensão reduzida, ou condensada, resulta tão somente de terem sido escritas para publicação em jornais. No entanto, é evidente que, apesar desse curto desenvolvimento, revelam as qualidades essenciais do ficcionista: a capacidade de efabulação de um enredo, a imaginação criadora que dá verosimilhança à ação, o jeito para o diálogo ou para o monólogo reveladores. Será porventura ainda resultado dessa condensação a frase curta, o período sóbrio que salta à vista do leitor mais desatento.
- Excerto 2
Como em todas as antologias de contos, por mais famosos que sejam os autores, notam-se, neste volume, desigualdades evidentes. Quero dizer: valem umas mais do que outras, ou se assim o preferirem, conforme a nossa sensibilidade ou estado de espírito ao fazer a leitura, emocionam-nos mais umas do que outras. Damos a estas uma qualquer preferência; consideramos outras menos interessantes. Mas anote-se igualmente que nos seria difícil excluir esta ou aquela por não ter qualquer interesse.
E isso deve-se, talvez, ao facto de, na sua elaboração, se verificar a fusão de elementos tirados da realidade viva com os da realidade imaginada, ou, se assim quiserem, com os do sonho apetecido como realidade vivida.
Sente-se latejar a vida do ambiente da terra natal do contista em todas ou quase todas as histórias do volume. A observação chegou ao moço artista para dar às suas criações o cunho de autenticidade que no-las faz aceitar como verosímeis no meio em que elas se desenrolam.
E será ainda, por isso mesmo, que mais nos impressionam, pelo luar de poesia que as toca, as narrativas de A. M. em que nos aparecem crianças. É evidente a ternura contida com que nos fala dos meninos pobres e dos pobres e humildes seres vivos que a desgraça amarfanha e limita.
- Excerto 3
Creio que O Berlinde do Janica, porventura o melhor conto do livro, se nos afigura mais impressionante exatamente por revelar essa ternura pela infância e pela vida dos humildes de que o autor dá provas evidentes. Por isso também, me parecem de destacar os contos: As laranjas eram azedas e A criança e a moeda.
Pôs talvez o jovem artista, nestas pequenas narrativas, o melhor da sua sensibilidade de contador de histórias. E, porventura ainda, fez nelas a evocação do que pôde observar como vida vivida. Há nesses contarelos de crianças, aquelas saudades da infância, que estão na base de todo o sentido poético da vida, e que são, em todos nós, sempre profundos e sinceros.
E acontecerá também que noutros entrechos, de jovens e de moços, se note uma certa sublimação imaginada do rapaz doente que se realiza na evasão ou no sonho de tudo o que nele deve ter sido frustração de anseios que a doença não deixou tornar realidades.
Joaquim Magalhães
- O Berlinde do Janica
In: Macheira, António, "Até Amanhã Meu Filho - Contos e Narrativas"
As crianças estavam tristes e carrancudas, os berlindes no fundo das algibeiras, as bocas cerradas e firmes. Um sol de inverno fingia afagá-las, convidava-as a saltar, a brincar. Mas ninguém sentia desejos de correr pelo largo grande que se estendia a seus pés: sentados junto do muro alto que lhes servia de abrigo e de encosto, os miúdos nem sequer fumavam as beatas apanhadas nos dias anteriores pelas ruas e cafés, durante as suas deambulações sem finalidade aparente.
Eram seis, mas, na semana passada, eram sete. O Janica morrera e enterrara-se ao princípio da tarde. Poucos dias estivera doente em casa, fora-se deste mundo quase de repente. Pneumonia dupla, dissera o médico. Como lhes era habitual, assim que saíram do cemitério, os companheiros do Janica dirigiram-se para o sítio preferido, o largo da Feira, enorme e cheio de sol. Afinal verificaram, angustiados, que não podiam brincar naquele dia nem talvez nos outros: o Janica morrera.
O Álvaro tirou um berlinde colorido da algibeira. Os mocinhos olharam tristemente para aquilo.
- Era do meu irmão… Lembram-se? Deu-me antes de morrer.
Todos sentiram um nó na garganta. Mas Álvaro continuava fitando a pequena esfera de vidro.
Não sou capaz de brincar com ele. Nã sou. E os seus olhos encheram-se de lágrimas. Os amigos rodearam-no.
- Deixa lá, Álvaro – disse o Talica – eu tenho uma ideia. Vamos enterrar o berlinde do Janica.
Acharam o alvitre bom. Próximo dali o terreno era quase arenoso, podiam fazer uma cova sem grande dificuldade. O Toino encontrou um pau pequeno e pontiagudo, começou logo a cavar rapidamente. Um a um todos o ajudaram e abriram uma cavidade estreita e funda. Em seguida Toino colocou um papel de jornal na abertura e empurrou-o até encontrar chão firme. O Álvaro, de mão a tremer, mostrou o berlinde uma vez mais aos companheiros, beijou-o levemente, e empurrou-o com todos os cuidados para dentro do buraco. Todos ouviram, então, o suave baque da queda do objeto sobre o papel . Mas sucedeu uma coisa imprevista e maravilhosa: como se uma força desconhecida os obrigasse a isso, o grupo inteiro tirou os seus berlindes dos bolsos esfarrapados e jogou-os para dentro da cova. Tudo isto num silêncio impressionante, apenas cortado pelo tilintar alegre que veio das entradas da terra.
Taparam meticulosamente o buraco, calcando bem a terra sob os calcanhares descalços. À superfície não deixaram qualquer aviso. Pelo contrário, durante algum tempo estiveram a destruir todos os indícios de uma escavação recente. Quando sentiram dúvidas acerca do verdadeiro local é que se retiraram novamente para o muro alto e branco e ali se conservaram em silencio até ao fim da tarde.
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