Braz, João Braz - Coletânea de Poemas de Dez Poetas Algarvios
- João Braz Machado
S. Brás de Alportel, 13/03/1912 - Portimão, 22/06/1993
Poeta. Jornalista. Escritor. Autor de peças de teatro e de revista. Os seus versos foram ditos por alguns dos maiores declamadores nacionais, como João Villaret e Natália Correia. Fez o curso da Industrial e Comercial de Silves / Secundária de Silves
Em casa de Emiliano da Costa, na aldeia de Estoi, num dos últimos aniversários do poeta.
Da esquerda para a direita, em pé, João Braz, Joaquim Magalhães, Elviro da Rocha Gomes e o José Neves Júnior.
Em 1978, Joaquim Magalhães escreveu o prefácio para a coletânea de poemas de poetas algarvios organizada por João Braz na Casa do Algarve, em Lisboa. Neste texto, Magalhães revela a sua paixão pelo Algarve e pelo seu património literário, valorizando tanto autores consagrados como aqueles menos conhecidos. Mostrando como a cultura regional pode ser celebrada e partilhada com todos, defendendo a importância de ler, ouvir e divulgar poesia.
Ler este prefácio é uma oportunidade de descobrir o entusiasmo de um verdadeiro promotor da cultura algarvia e de perceber como pequenos gestos, como organizar um sarau, podem manter viva a memória literária da região.
- Prefácio escrito por Joaquim Magalhães para a "Coletânea de Poemas de Dez Poetas Algarvios", com seleção de João Braz
À Maneira de Prefácio
Excerto 1
Todo e qualquer prefácio não passa afinal de posfácio, já que, na realidade, quase sempre é escrito depois da obra feita. Como acontece com este.
Na Casa do Algarves houve um sarau de poesia com poemas de poetas algarvios selecionados pelo declamador-poeta João Braz.
Para isso escolheu primeiro e fez, portanto, uma antologia.
Quer agora a Casa do Algarves dar-lhe publicação. O que me parece certo. Nunca é demasiado o que se faça dos escritos dos escritores algarvios.
Generosamente acham os seus dirigentes que o trabalho precisa de um apresentador. E escolheram-me para o efeito. Aceitei. Porque este tem sido em parte o meu destino de algarvio por opção, vai para 45 anos, com tempo de sobra, portanto, para me ter tornado algarvio deveras, como os que mais o são. E mais deliberadamente até, por o ser voluntariamente, com o coração a bater em uníssono simpático com o que ao Algarve mais importa. Agora e sempre, desde que para cá vim. E nisto tudo estará, com certeza, a fundamentação da escolha. Isto mesmo também torna imperiosa a aceitação do convite.
Excerto 2
A Casa do Algarve tem sido uma espécie de verdadeiro consulado turístico e cultural da sua província na capital do País. Tem no decurso dos anos da sua existência dado cobertura e apoio a muitas propostas de realizações e sonhos daquilo tudo que, em seu parecer, convém, ou possa vir a ser conveniente para o Algarve.
Persistentemente tem vivido a sonhar com um Algarve que se afirme e se realize com ações de características muito próprias. Tem sonhado - e, por vezes, visto que os sonhos se realizam - como no caso do Conservatório Regional do Algarve, que foi sonhado em Lisboa e saiu do casulo do sonho para ser a realidade que hoje é, em Faro, onde vive com dificuldades, mas procura cumprir, graças a um leque de carolices que vai desde a da Cruz Vermelha, que lhe dá abrigo e instalações, até ao sacrificado corpo docente que lhe đá a alma, e não só.
Pretende, pois, a “Casa do Algarve” editar esta coletânea de poemas, organizada por João Braz, com os versos que ele escolheu e disse aos sócios da Casa, num serão bem conseguido. João Braz preferiu, claro está, os de que mais gosta, como, de resto fazem todos os antologistas. Segundo o seu critério estético, de acordo com os seus padrões de gosto pessoal. Como, porém, lhe não chama antologia, mas modestamente, uma coletânea, não se estranhará que. tanto de poetas vivos como de já mortos, mas nascidos no Algarve, alguns autores e poemas não figurem na seleção. Poderá assim notar-se a falta, por exemplo de Ramos Rosa, de Gastão Cruz, de Leonel Neves, de Vicente Campinas, de Torcato da Luz, etc. Cito apenas alguns. Porque ainda há mais, claro está. Só que de mais um em mais um, a cadeia é sem fim. Logo temos de entender o critério de João Braz e de nos não esquecermos de que a escolha foi feita para ser ouvida por um público de assistentes curiosos de poesia, sim, mas não com certeza, de amadores muito exigentes. Para os quais, naturalmente e, com o devido respeito, o declamador-poeta escolheu aqueles poemas que em seu parecer obteriam sem problemas uma mais direta adesão de comunicação e simpatia. Para os quais não seriam precisas aquelas introduções exegéticas, ou simples explicações, que facilitam o entendimento do que é mesmo menos fácil. Ora, como é sabido, muita da produção lírica dos poetas das mais modernas gerações nem sempre é acessível a um público não-iniciado.
Excerto 3
Por outro lado é sempre útil divulgar e relembrar poemas grandes dos poetas da província, porque uns são menos lembrados e outros mais ou menos esquecidos. E. num caso ou noutro, esta pequena antologia sem pretensões põe em foco poemas e autores de obras esgotadas. Esta uma outra justificação para a edição.
Quanto à inclusão de poemas de João Braz, não houve auto seleção. Sendo poeta também e declamador da sessão, lógico seria que dissesse versos seus, no mesmo serão em que recitou os restantes. A sua inclusão tem, pois, lugar na coletânea do que foi dito no serão. Com escrúpulos dele, mas com justiça, pois não faria sentido que fossem excluídos alguns dos textos ditos, só por serem da autoria do recitador. Daí que a sua publicação se faça aqui, apesar de estarem incluídos na 2.* edição do volume de João Braz.
Só nos resta repetir o voto de que este aperitivo sirva de estímulo à curiosidade do eventual leitor para mais intenso proveito e mais profundo convívio com os autores escolhidos e as obras de que os poemas, ora presentes, são apenas uma amostra.
Se tal se conseguir terão sido atingidos todos os objetivos da iniciativa.
Assim seja.
Faro, 6 de Maio de 1978
Joaquim Magalhães
- LEITURAS:
- Poema de João Braz publicado na referida "Coletânea de Poemas de Dez Poetas Algarvios":
Variações Sobre um Tema Eterno
Tive-a nas mãos inteirinha
E aos poucos a fui deixando
Por onde a má sorte minha
Aos baldões me ia levando.
Assim, ao longo dos dias
Em que, errado, envelheci,
Ficaram-me as mãos vazias
Da vida que não vivi...
Pudesse eu voltar atrás!
Pudesse eu
Ser outra vez rapaz,
E a vida que Deus me deu
Tivesse-a inteira, outra vez,
- Fazia de mim e dela
Qualquer coisa grande e bela
Como nunca ninguém fez!
Havia de afrontar mares terriveis,
Correr mundo ao apelo das lonjuras,
Atrever-me às maiores aventuras,
E derrotar todos os impossíveis!
Em cada, homem, sem olhar a cor,
Eu havia de ver um meu irmão
E dar-lhe a minha fé e o meu amor,
Pôr-lhe uma esp'rança a rir no coração..
Havia de semear
Meu Sonho enorme e fecundo,
E vê-lo, enfim, germinar
Nas cinco partes do mundo!
Ai, vida daqueles dias
Em que errado me perdi,
E fiquei de mãos vazias
De tudo o que não vivi!
Pudesse eu voltar atrás
E forte, alegre e audaz
Dar-me à luta com coragem
E, a cada meu passo em frente,
Deixar sinal da passagem
De alguém que é vivo e presente!
... Mas não dá Deus outra vez
A vida que já nos deu,
E ai de quem a não prendeu,
De quem a não agarrou!
Ai daquele que se fez
Aquilo que eu hoje sou:
Chama que não acendeu,
- Asa que nunca voou!
- A que me trouxe o Amor ([blogue https://poemas-poestas.blogspot.com/2008/06/joo-braz_07.html no blogue Poemas & Poetas)
A que me trouxe o Amor veio à tardinha,
Com sol nos olhos e com mel na boca,
Em gestos coleantes de gatinha,
Aninhar-se em meus braços p`ra ser minha
Um breve instante, numa entrega louca!
As minhas mãos morenas, enlaçei-as
Nas suas brancas mãos---lírios em flor;
Dei-lh`as vazias, tristes e plebeias,
E elas ficaram milionárias, cheias
Da alma daquela que me trouxe o Amor...
A que me trouxe o Amor veio de mansinho,
Com graças de menina e de mulher,
Junto ao meu peito procurar carinho,
Pomba cansada que regressa ao ninho
Para suavemente adormecer.
- De Braço Dado - Poema publicado no facebook por Graça Braz
